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Saturday, June 06, 2009

IMAGENS DA CARÊNCIA

(O tempo que calávamos ou, pelo contrário, nos fazia chorar. Era a guerra civil em Angola e eu saía por aí espalhando imagens da escassez.)


(guarda uma água minina
guarda mais parece teta
de cabra. Orvalho que comi
é uma infância o TEMPO
este moinho breve)


DESSALARIADO

da semana sem acordes cumprira
os dias conquistados

o mês dessalariado busca
os bolsos do labirinto:

trago nos bolsos da geração
o peso das calças


a meio da carência,

balbuciando o mês despeja
a ressaca no barro
alheios os poucos dias
do catecismo pedira
novos ciclos ovulares

a meio da carência
preste à ave atingi
o litoral sanguíneo


INFLAÇÃO!!

nós vendemos tudo arrumamos barulhos vendemos
bandeiras brancas içamos gritos informais.
e nossas tristes glórias são só pensamentos: os
mercados seduzem o comprador de derrotas
quando até mi(ni)stérios mercantilizam o hino
nacional aqui mesmo, noutra emboscada onde
eu vivo um dólar apenas.


assim é o grão

tamanho de sorvo
ousadia
da estiagem
sinto
a casca
aflição hepá-
tica da
cifra
caseira
inflação
ementária,

assim é o grão.

Friday, April 10, 2009

O conto abaixo foi publicado na última edição imprensa da revista digital Confraria (Brasil) e integra o leque de contos do meu próximo livro, garantido pela U. E. A.
ana rita



O sorriso ainda é o mesmo apesar de contrariado por um rosto flácido, pousado sobre o peso dos anos. Li-lhe na sombra os olhos da alma e pareceu-me igual a tantas e tantas mulheres apreensivas dos constantes recuos de suas vidas. Não era sempre que se podia conservar um sorriso a largo dos acontecimentos mais disparatados no interior de um território que pouco ou nada se realizava no sonho da gente. Reconheci-a ante o susto dessa velhice.
– Ana Rita, quanto tempo já nos comeram – disse-lhe ansioso de ouvir de novo o timbre agudo da sua garganta; tinha voz receosa, talvez cautelosa. E sofrimento.
Respondeu-me finalmente, agora fazendo sobressaltar a voz.
– Tem muitos anos, nos conhecemos. Aonde estavas durante essa vida em que nos puseram fogo? – disse, a sua linguagem é o retrato da guerra.
Em 1969, Ana Rita abandonava os estudos para se casar. O noivo era um militar do exército colonial, uma pessoa de quem se lembra como vinda de boas famílias. Naquela altura, Ana completaria dezoito anos, tão moça e arrumadinha, se lhe notava o sonho na lentidão dos passos – sabe aquela adolescência no sono de mulher?
Então. O noivado descoseu-se, o casamento não se realizou. Muitos anos depois disseram-me que o homem tinha sido seduzido por uma gatuna chegada do puto; e que Ana tivera então que descobrir as outras duas partes de um “rosário” feminino – são promessas que dão à mulher. – Na época uma mulher da gente tinha apenas três opções: ser casada, beata ou prostituta. Digo mais ou menos nessa proximidade, já que solteira não tinha vez.
As opções de Ana Rita foram sempre agravadas por azar. Por conseguinte, ela é de uma família católica formada de muitas mulheres onde o catolicismo tinha pinta de obrigatoriedade. Duas de suas primas eram madres e a irmã mais crescida concorria para tal. Tinha também um tio padre que vivia no Congo.
Assim ela achou-se numa opção contundente, diante da Fé de todas as crenças. Teceu um manto religioso para a alma e com o instrumento da fé foi a abrir conventos para refugiar-se daquele mundo que não a desagravara.
Não sei por quanto tempo, nem ela o sabia, as portas atrás de si permaneceriam fechadas; quanto duraria o degredo – apesar de que coisas da alma duram quanto o tamanho da fé e de Ana esse mundo é pequeno ante a crónica da sua alma.
Então. Restou aqui fora aquele sorriso que nem velhice consegue riscar, num rosto que perambulava aí, no susto das épocas que degradaram nossos semblantes – como se vê, pessoas ainda assustadas, esquinadas na espera de qualquer coisa que vem aí, ninguém sabe o quê, mas qualquer raiva de novo a deflagrar de nós próprios. Aliás, sempre fomos assim, não tem conversa.
Encontrei-a sobre o peso dos seus anos arrastando um corpo magro. Provavelmente nada mais lhe dói. Fica-me ainda a rememoração de tudo que se passou daquela vez que Ana Rita desconseguiu na vocação.
Não saiu do convento pelos fundos, mas pela porta que lhe estava permanentemente destinada; uma porta se abria aos seus desejos como se fosse magia. Abriu-se lenta, completa; o som gutural de dobradiças nos caixilhos.
Começou após aquela visita sofisticada que eu e o meu amigo Beto Bengala efectuamos à comunidade das Irmãs Clarissa.
Beto possuía uma religiosidade centrada no catolicismo que também vinha de família, pergaminhos da fé que sobejava por Malanje inteira. Dele diziam ser um homem crepuscular...
Não entendo. Vive de crepúsculos ou contando crepúsculos? Depois é que ele me deu a conhecer que se ajoelhava ao pôr e ao nascer do sol para rezar, com a perseverança de um muçulmano, passe o exagero. Minha euforia em Cristo aumentou com a sua dedicação à minha enfraquecida alma e fê-lo para aumentar nossa amizade.
Se não fosse ele, jamais conseguiria entrar no recinto fortificado das Clarissa para olhar o rosto da Ana Rita, um rosto que sempre me encarava próximo ao choro, como uma criança apanhada em erro com medo de ser castigada. Assim ela era, uma sensibilidade se arrastava sobre a minha pele – ela tocava demais meu exterior, como a lava expelida de um vulcão interiorizado.
É proibida a visita de machos no convento. Não pelo simples facto de ser homem – macho é um estado diferente do carácter formado no celibato. O Beto Bengala desconta-se porque é diferente: antigo sacristão, vindo de uma família forjada na palavra de Deus. Estando a mais, junto-me às suas afinidades.
Recobrada da aflição, entre deixar-nos entrar e a proibição tradicional no espaço das Clarissa, a Madre Superior deu-nos muita alegria.
Com Ana Rita apareceu um coro de raparigas, adivinha-se logo desejos de rever por um dia, nem que seja a sombra de um homem. Um encontro insólito de que vou me lembrar sempre.
Primeiro, chegaram com o coro absoluto do silêncio; depois, uma delas – ainda me lembro do seu vestido branco com auréolas vermelhas e lenço azul marinho na cabeça, subiu sobre a onda e em seu pedestal se destacou para quebrar a mudez.
– Nunca mais vi um homem. – disse com uma tonalidade exclamativa, com um impulso apenas feminino.
– Precisava ver? – indaguei a despropósito com um gesto visivelmente sensível.
Precisei agradar mulheres na idade de partir o coco, postando de vez meu lado masculino. A maioria das meninas, senão todas, não viam um homem por mais de seis meses, disseram, o cheiro de machos se lhes tocava por isso fundo.
É uma questão de vocação.
– E você tem vocação? – indaguei a Ana Rita que parecia penalizada com tudo aquilo.
Agora um olhar trêmulo; um sorriso assustado; de cara com a sua timidez.
A moça que dissera nunca mais ter visto um homem portava-se com assanhadice. Era uma moçambicana com ares de ingenuidade, mas que adentrava nos olhares lúbricos e furtivos com que a adornei.
Diante de nós, separados por uma grade metálica, pousavam cerca de doze jovens belas, suaves, comunicativas. Não me fiz rogado, dei-me a elas a falar da relação homem/mulher. Tremiam o riso mas encantavam-se aquelas mulheres que meses e meses lhes estava vedada a proximidade masculina porque o segundo instinto se impôs e cupido chegou de boleia.
Não faltaria afinal uma espia, uma madre caducada e fria. E o que estava bom demais logo coartado com o fim da comédia. Foram imediatamente recolhidas as raparigas do outro mundo.
Beto Bengala que tinha uma irmã entre as moças passou o tempo restante me acusando e amaldiçoando, quase me chamava psicopata. Eu disse: fui lá para não rezar com as meninas – lógico, não é mesmo?
– Tanta puta por aí e você vai logo de zombaria sobre aquelas pobres meninas, comprometidas com a Palavra. Só um anormal como tu. – Xinguilava [gesticulava]raivoso o Beto.
Pelo menos o Beto tinha fundamentos, com toda a razão. Mais razão ainda depois que certas coisas aconteceram: a excitação de freiras é algo soberbo mas por vezes maligno, e impaciente; deixá-las com a angústia num torvelinho de hormónios. Tudo isso madrugou, sem a despertação, uma série de lembranças imortais no sonho absoluto de Ana Rita.
Portava-se uma mulher febril numa catástrofe de delírios. Seu primeiro sonho depois daquele encontro inesperado foi esmagado por uma convulsão generalizada e faminta, gemidos rosados mas caóticos abalos nas palavras contorcidas; corpo santiforme no equívoco do mundo com os desejos mundanos do inconsciente derramados no lençol. O lençol sempre encharcado com suor, baba, fluídos vaginais e urina; e sonhos. Sonhos altos, sonhos imundos para aquela comunidade religiosa preste a dar noivas e esposas caprichosas para Jesus Cristo.
Viveu Ana Rita na redondeza do sonho durante muitos dias. Despertava para o sonambulismo que voltava a agravar-se de febre, delírios e contorções sensuais. Um dia acordou de vez, fraca, porém mais esclarecida. Voltou-lhe aquele sorriso de sol num rosto dúbio. Abriu as portas do convento e chamou a si aqueles desejos dum mundo quente.
Contam que fora tanto o fogo e a sofreguidão que se achasse um homem no halo do seu percurso, certamente lhe trepava logo para sacudir o tédio e as teias que ganhara num lugar parado onde se vive conciliado com a morte – não pelos dias sinistros que nos anos 70 se alastravam como aquelas noites que a memória aterroriza; a morte a rir-se do que está vivo; não da morte assim como ela é, verdadeira e terminal mas, isto sim, a idade de que se idealiza parada, sequestrada... E o mundo só parece acontecer fora das unidades fechadas, fora da internação.
Saíra a procura dos sonhos. Desde aquela vez que me ouviram uma linguagem nova, passei a ser para ela e para muitas outras mulheres apertadas naquele convento, a abundância dos escassos dias oníricos que em Ana Rita pioravam para o conhecido purgatório dos delírios e alucinações meteóricas.
Tudo isso levara anos. Depois que se completou a metamorfose dela eu não estava mais cá fora. Tinha sido rusgado para a tropa. Naquele tempo era rigorosamente assim, apanhavam involuntários (uma rusga é um processo em que se permite o sequestro oficial) que incorporavam nas fileiras marxista de um governo que parecia embruxado, perto do povo mas irrealizável.
– Onde está aquele que tem chamas na boca? – perguntava insistente para o Beto Bengala.
Beto é um tipo muito simples. Mais fácil para ele seria exercitar-se para o divino do que abrir metáforas de fogo; não enche a boca com palavras sexuais para as deitar no meio da depravação mundial, onde qualquer mulher pode ser banalizada. Não se sabe se algum dia ele vai se casar por alguma razão nobre que não seja sacramental.
Também dizem que Beto é vagaroso com as mulheres, que jamais olha para a bunda duma dama. Tem tudo – dizem as fêmeas – para agradar filhinhas de papai, porém, nunca namorou garota alguma. Mas tem mesmo gente assim... não tem?
Ana Rita foi entrando, à minha procura, pelas ruas da vida; e sua confusão mental abonava mais desesperanças com deambulação sonolenta de rua em rua.
– Onde está o fogueiro com o calor que preciso sentir? São as minhas sensações que ele tem na boca. – Solicitava, mas minhas palavras não foram desse fogo todo que ela clama e reclama.
Falta de respeito – lhe falaram confessos puritanos e beatas e beatos que sempre andam demais na sua vida – não toma nenhum cuidado com a língua. E pensar, ia ser freira... Pobre Cristo!
Algum padre inadvertido, muito tolerante para com a paixão humana, tentou protegê-la com a sua fé. Defendê-la dos acasos mundanos na encruzilhada de qualquer infidelidade.
– Haja compaixão. É apenas uma ovelha desgarrada – ele disse.
Ouviu do bom:
– As putas também são, padre.
Contaram-me tudo o que aconteceu com esse amor desaparecido, a Ana Rita. Eu estava impossível, perdido na história militar.
Anos depois que voltei da kuemba [serviço militar], fui encontra-la totalmente diferente. Chamavam-lhe “bandida” e carregava uma gravidez indesejada, de algum amante desconhecido. Seu conceito de vida aterrorizou-me. Tinha um rosto frio como eu tinha visto em filmes de agentes secretos, embora abrisse, a calhar, ainda o sorriso agradável. Eu desejava que falasse do seu futuro filho, o menino iria nascer do seu ventre.
Ríspida! Ela se tornou numa mulher bastante ríspida. Irrisória.
– Que esse pavor me venha parar nos braços –; disse, nem lastimosa – se nascer um gato ou uma esperança, o nome é depois.
– Ritinha, não se fala assim de um filho... nem nasceu ainda, coitado. – Implorei.
– Eu me desgastei. Onde tu estavas enquanto eu aqui me desgastava de todas as dores?
– Ana Rita, ouça-me: nunca um homem pode ser tanto. Ninguém desgasta à toa mulher que seja.
– Nunca mais vou sentir a dor de uma voz. – Ironizou, era uma crítica à minha ausentada vida enquanto ela procurava...
– Eu procurei o teu nome... vai estar sempre perdido como ninguém. – Finalizou desesperançada. Afinal nem conhecia meu nome.Formidável – formulei em meu pensamento vinte anos depois que o caso de Ana Rita me deixava de espírito atormentado. Talvez fosse por demasiada compaixão ou por excesso de zelo. – Formidável.
Como disse no começo, o sorriso é ainda tão claro apesar da apreensão secular que se nos repartiu de todas as guerras angolanas. Vinte anos tinham pesado firme sobre caminhos que ela não pisou, que não a levaram para lado nenhum.
Estavam mortos os caminhos por que devia passar, de viagem nocturna para a sobriedade. Tudo que perseguiu, depois que ela não me viu mais, foram desejos inconfessáveis ou sigilos do munhungo [libertinagem] – o mesmo que o mundo ainda vê mas que para si guarda como se tal mundo nada mais de si pode achar: degeneração. Apesar de que os olhos continuam sorridentes.
Agora é tarde demais para recomeçar.

Thursday, April 09, 2009

SUSSURRAVA A LUZ DESSA NOITE SEM FIM

foste quem a despertar suavizava
o medo contado à vida;

sussurravas o corpo destapavas
os ouvidos;

tu espevitas a canção que agita
a revolta cirúrgica
dum mundo em desconstrução.

e das vértebras às frases
recompões os caminhos andados;

é a sussurrar que revives fantasmas
cheios de teus ouvidos: espaços mortos,
falecidos. outras raivas,

a regurgitação dos barcos que desciam
pelo fundo da córnea.

no fim tu és muda, apenas dum olhar
que escorre trevas; ou duma fenda
que atravessa o barco do corpo.
pela garganta que afundava meus remos.

Sunday, January 13, 2008

O Momento Da Criação Poética
(alguns achados)

Certa vez, no espaço de entrevistas "Leituras" da Televisão Pública de Angola (TPA), então apresentado pelo escritor e crítico literário Luís Kandjimbo, respondi a uma pergunta sobre a (ir)racionalidade da poesia, mais ou menos (cito de memória) assim: no momento que se redige ela discorre de modo irracional...
Hoje mantenho a mesma opinião mas é necessário esclarecer sobre distintas circunstâncias, modos, acessibilidade psicoemocional etc.. Cada poema nasce num momento que lhe é específico. Alguns de meus poemas surgiram irrompendo de súbito as brumas do inconsciente de um modo que se pode chamar inspiração. Porém, muitos são os poemas que por falta dessa inspiração começaram a ser escritos de modo cerebral/racional, revisitados e corrigidos até propiciarem o fantástico momento interior, irracional e impulsivo, que instintivamente incorpora palavras e figuras antes redesenhadas, e que enquadra na forma que descai enfática e inspirada, da própria mente.
O poema intitulado "Colheitas Uterinas", da minha primeira obra literária "A Forma dos Desejos", é um exemplo de poema que demorou a constituir-se. Estava eu na Lunda-Norte quando visitei por duas ou três vezes o Museu do Dundo. Uma estrutura artesanal moldada de barro e argila apresentava forma humana com contornos de mulher, em cujo ventre (útero) se abria um forno. Esse forno fora em épocas passadas o apanágio dos ferreiros lundas. Importa é dizer que "Colheitas Uterinas" nasce com a simbologia da mulher e do fogo. Os primeiros versos, persistentemente abortavam o poema. Obviamente racional, a intenção fracassava; cansei-me de riscar, emendar e reescrever. Alguns anos depois, estando já a residir em Luanda, todos esses elementos e aqueles amontoados de palavras fluiram, encaixaram-se, inspiravam-me... O poema resultou.
*********
Colheitas Uterinas
Da paisagem testemunhei a prova de fogo
o silêncio material e a riqueza metafísica.
Na tua lavra, irmã, há colheitas uterinas:
uma nova viagem para que nos regressemos
nós mesmos na indiferença.
Liberdade sem medo, conta os dedos da
tua mão procriada conta p'ra nação:
nosso machado secreto canta pela raiz
- Tens essa noção de fogo em tua tabuada?
Fonema d'orvalhos
Dou aos meus versos a sonolência dos teus gemidos
porque não encontrei outra mulher que me aguardasse
com o pote d'orvalhos viçosos:
manhãs de água se levantam no ímpeto
nutres as peles de meus tambores na humidade
para não mais esquecer as vogais despertas da erosão
desde o primeiro calvário ao hímen nucleado
que estendias nos meus braços de fome.
Dou à Escrita Meus Tormentos
Com medo dou à escrita o que pertence
às vitórias;
narro a fadiga o funeral da
abundância;
arrastei corpos iletrados e maravilhas
dos palácios e mesquitas;
disseram-me que calasse atentavam
contra as palavras;
feriram o pensamento;
as palavras vieram juntar-se a
tudo quanto não vi.
nunca mais verei nada!,
apenas o que disse das
palavras impacientes nas minhas retinas
desmistificadas.
e deram-me um tiro na retina.

Tuesday, January 01, 2008

Meus Últimos Encontros


Encerrada a reunião de professores de literaturas africanas realizada no espaço da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) entre os dias 21 a 23/11/07 na qual não fui convidado por motivos talvez justificados, pude encontrar-me com alguns dos participantes hospedados no hotel Copacabana Mar. Encontros para mim gratificantes por razões que explico de imediato: muita gente que me conhece, sabe que sou um "caçador" de poesia, um leitor dedicado à escrita alheia. Procuro poetas sem reservas - desde os clássicos até às mais novas gerações.
Disse gratificante e repito-o porque ganhei três livros de três poetas, não tanto conhecidos ainda mas, tal como eu, perfilam os mesmos interesses - tornar conhecido o produto de labor literário próprio, o que é infinitamente justo. - Trata-se de Abre Paxe (1969), Akiz Neto (1959) e Zetho Cunha Gonçalves (1960).
O primeiro é autor de uma surpreendente obra que mereceu o prémio António Jacinto (ver atrás minha exposição sobre prémios literários) intitulada "A Chave no Repouso da Porta", em 2003. Desde então aguardei pelo aprimoramento e pela confirmação da sua estética. O seu segundo poemário "O Vento Fede de Luz" responde à indações cautelares bem como corresponde a esse anseio particular que tenho, geralmente, com escritores em início de safra. Além disso, o facto de ele ser meu amigo pessoal, justificam-se as cautelas que tive com relação ao primeiro poemário. Abreu Paxe supera-se a si com uma poética que redefine a sua primeira escrita, demonstra maturidade textual num trabalho consciente e meticuloso, com um estilo estonteante e sedutor, para o bem da estética.
Já Akiz Neto de quem conheci os primeiros trabalhos há cerca de 4-5 anos, ofereceu-me o seu último livro intitulado "Construção Figurativa do Gesto", prefaciado pela categorizada Prof. Dra Carmen Lúcia Tindó Secco - UFRJ. Akiz Neto vem de longe e passo a passo vai se afirmando mais construtivo, mais sabedor do difícil escoamento dos sentidos, por esse levantar da arte. Diz a prefaciadora é "... uma aprendizagem que demanda tempo, paciência, múltiplas e ruminadas leituras (atenção Brigada Jovem de Literatura). Da minha parte creio que falta ao Akiz apenas o passo decisivo, nada de mágico, que se centra fundamentalmente - estou querendo ajudar mas não sei se devo - na auto-consciência crítica. Poemas felizes como " Figura Despida pag 17; Pétalas da Ilha pag 21; Hífen 1 Primeiro Amor pag 49 etc. etc." não devem coabitar com a insuficiência estética notória, por exemplo, nos poemas "Duas Amplitudes Sucessivas pag 55 ou o ? O Verso ou o Reverso... pag 56 - independentemente que seja árabe ou se leia da direita para a esquerda". Dirigindo-me ao crítico literário que é também, que me permita um conselho: quando um prefaciador aponta insuficiências ou diz que há ainda muito por laborar, não publique o livro, reescreva-o; se publicar o livro exclua o prefácio. É lógico, né?
Quanto a Zetho Gonçalves - não o conhecia, quiça, nem ele a mim - ofereceu-me o seu "A Palavra Exuberante". À medida que o fui lendo, cada poema abria uma porta e, de tantas portas um caminho e de tantos caminhos eis o Sul de Angola. Poemas dos homens, da flora e da fauna onde "se levanta todo o horizonte". Maravilha. Beleza. Qualidade. Concordo com o Francisco Soares em nota na contracapa, em referência a essa poesia "... conduzida ao essencial da imagem, da palavra e da sugestão... mostra familiaridade com os paralelismos discursivos de várias tradições ... com particular incidência nas oraturas tradicionais angolanas das terras do fim do mundo". Zetho incorpora ainda no fim do livro um Glossário e Notas que espelham o conhecimento dos lugares que visita, elementos esses que poderão constituir, para qualquer interessado, um bom (ainda que breve) material de consulta.
O resto é poesia, meus caros amigos

Sunday, November 18, 2007

Wednesday, November 14, 2007

Apreciações

Em sua mensagem(e-mail) de 10/03/07, Maria Vilani intelectual e editora brasileira, comenta sobre o livro de contos surreambulando: "...Você trabalha muito bem a linguagem, a cultura e a história africana. Você tem um caminho muito bonito a ser conquistado..."
*****
Ricardo Riso, do Rio de Janeiro, surpreende-me no seu blog de literatura onde posta diversos autores africanos entre os quais Mia Couto, Manuel Rui, Nelson Saúte e outros. No seu ensaio explica que teve o primeiro contacto com a poesia de João Tala numa antologia de poesia angolana contemporânea, publicada pela Revista Poesia Sempre nº 23 (Fundação Biblioteca Nacional) e posteriormente em uma aula sobre literatura angolana, ministrada pela Prof. Dra Laura Cavalcante Padilha. Exclama "foram momentos de encantamento com a força poética do autor". Segundo ele, precisava de um contacto maior com a minha poesia, ou seja, um livro, até conseguir o poemário "Lugar Assim". É dele a seguinte apreciação: Em "Lugar Assim, a distopia angolana é tratada em poemas que fazem da metalinguagem a sua principal fonte para combater o dilaceramento social e os sonhos esgarçados do paíse ...". A terminar vai ele ainda comentando: "...João Tala, apesar do amargo de boa parte do livro, ainda assim escreve versos que valorizam a linguagem poética como espaço de resistência da utopia. Com isso, ele segue a tradição lírica angolana..."

Sunday, October 29, 2006

ESPAÇO POÉTICO


o gasto da semente I

Tuas mãos na água devolvem terra
à semente a plebe absorve a mente
dessa água temporal à forja da
semente esclarece a revolta e
o novilho amordaçado nos braços
da tempestade

o gasto da semente II

Tuas mãos na água recolhem terra
à boca, gesto pastoral, pacífico e
dá lugar à semente, deposita a
nuvem na pálpebra
onde irás buscar o coração
o novilho informal,

(n)os olhos da plebe



o gasto da semente III

deste verso refaço o poema da plebe. Este
mundo fortaleço da polpa dos meus dedos
quando escrevo com o coração na lavra;
ainda a página imortal - não calo o
meu idioma

nem esses ventos que recolho do mote
e palavras diminutas, sôfregas,
levadas à boca e cantadas no andar
da ovelha que ofereço à página.

ELA ARDE

os sonhos dela ardem e tornam-se vivos
vivos os nervos entre gotas do incêndio.
- ela arde e transpira os comícios à beira do leite.
virei beber o lume do seu corpo suado;
virei porque o amor arde de febre e não tem cura;
virei porque ela chora de branco apeada sobre a
própria noite. e vejo o seu corpo renovado.



AMAR DEMAIS

cantar rochas amar demais
entrar na revolução
como uma erupção

abordar o perfil de
dureza
com delírios de vida
e vagas explosões

desses barcos sufocados
pela vida
e rochas do homem

mal dizem os saberes:
quem canta rochas
vulcaniza a próstata.

Wednesday, October 25, 2006

EU E A CRÍTICA

Tenho imenso apreço à crítica literária como estimo, por exemplo, a anátomopatologia no conjunto das disciplinas médicas. Com exagero ironiza-se de que o anátomopatologista (especialista que analisa alterações de células, tecidos e orgãos de pessoas doentes ou em estado post-mortem) chega sempre tarde. Mas a verdade é que ele acaba sendo o crítico da medicina, tal como a crítica literária é a consciência da literatura. Tudo que existe na arte, na ciência, na religião e outros domínios correlacionados, suscita uma teoria a partir da qual se exploram premissas para a sua compreensão factual, desenvolvimento, implantação, estabilização ou aceitação como fenómeno social, ou seja existencial etc.. É nesse contexto que vias se impõem para a absoluta necessidade da crítica, do ensaio e do jornalismo cultural.
No caso específico de J.T. - esse vosso criado -, a crítica esteve desde o início da sua formação literária sempre presente e querida. Para si, o problemático reside fundamentalmente no facto de que nem sempre a crítica é exercida por pessoas competentes para tal, por um lado, e por outro lado pode se defraudada conforme a(s) conveniências(s).
Não me preocupa qualquer crítico posto que olho com suspeita os poetas que também são críticos literários. Em alguns destes (e não são poucos), existe uma tendência para salvanguardar semelhanças que decorrem de escolas, grupos ou correntes ligadas à sua forma de fazer poesia (estilo), exibindo critérios, rotulando com agravo outros estilos. Essa imposição de formas e critérios soa-me a exercício de sobrevivência, uma actividade cerebral pouco ou nada percebida, que pode ir desmanchando compromissos com a própria arte, a serviço irrisório do autoconsumismo ou duma metódica autopromoção. Tenho por isso cuidado de separar o crítico que depois faz poesia, do poeta que envereda pela crítica (com respeito daqueles que evoluem concomitantemente um e o outro). O primeiro apoia-se por uma actividade primariamente académica, com a isenção que deverá conservar antes e depois da sua poesia; o segundo é suspeito na medida em que o exercício da crítica surge aqui e algures como uma actividade acessória, se importando amiúde ante a lógica que imana da diversidade estilística do conseguimento estético. É logico...

Monday, October 16, 2006

Sunday, October 15, 2006

Sobre a obra surreambulando de João Tala, Isaquiel Cori, contista e jornalista considerou o seguinte: "essas narrativas, essas jóias de ficção, vêm interpelar as nossas consciências e dizer_nos ainda coisas dos dias dos tumultos. são evocações necessárias, incontornáveis e indispensáveis no esforço que deve ser feito para a "purificação" das nossas almas de de angolanos. a memória dos dias e anos de tumulto há-de subsistir e tem de subsistir sempre, na medida em que a reconciliação nacional não pode ser feita pela via da amnésia colectiva. Este livro, surreambulando, situa-se na tradição literária nacional de abordagem da realidade social sem peias nem contemplações e relança e traz à tona o papel do escritor enquanto consciência crítica e "voz dos que não têm voz".

Thursday, October 12, 2006


Rio de Janeiro, 12/10/06


caso vc ainda me ature, deixa-me adverti-lo que será frequente neste blog o uso alternado das primeira e segunda pessoa do singular; talmente maiúscula/minúscula.
J. T., 46, natural de Malanje (Angola), médico nas horas ocupadas, escritor de lazer (na verdade ele queria ser folgazão e foi traído pelas palavras; tinha de começar por alguma, nem que fosse palavra noite), é membro da União dos Escritores Angolanos. publicou:

1. a forma dos desejos (poesia) 1997
2. o gasto da semente (poesia) 2000
3. a forma dos desejos II (poesia) 2002
4. lugar assim (poesia) 2004
5. a forma dos desejos (contos) 2004
6. a vitória é uma ilusão de filósofo e de loucos (poesia) 2005
7. surreambulando (contos) 2006, aguarda lançamento


algumas das obras acima valeram prémios literários. darei um dia meu parecer sobre premiações literárias, aguardem-me por favor.
estive agora mesmo a verificar meus cadernos de rascunho, onde geralmente escondo à lápis rigoroso minhas ideias, poemas, contos, notas de meus tormentos, negativas da história, pedaços amargos e coisas parecidas. dos meus cadernos que parecem escombros, encontrei:

tudo parece que foi ontem

por um dia de parto escreve-se um
comício:
tudo parece ontem o hospital e
o paraíso. os mesmos anjos no
limite d'ervas.
estamos reunidos com o doutor do
mundo
ninguém escreverá uma dor que seja.

(inédito)

no meu caderno de palavras prosseguem os rascunhos, certo dia que ouço o barulho que vem da cozinha, os curtos passos de uma mulher atarefada, atarantada, bailo naquele átrio, o barulho próprio das cozinhas, a imaginação compõe uma orquestra. inédito absorvível, provavelmente ainda não concluído. eis...

LABORATÓRIO

Tagarelando a orquestra teus utensílios
cada vez mais teus sons o toque de um copo
uma tampa rolando o ruído da frigideira
tangível teu corpo deste ímpeto informe
mãos no olfacto som no paladar,
água na fervura. você me aquece,

cheia de temperaturas
em todo teu corpo houvera uma tempestade:
o corpo candente
a farinha branca
a panela a ferver e eu a ferver

fogo no espírito, operária
de novo venho entregar-me
faço parte dessa fórmula secreta
aprontada em ponto de fogo.

(inédito)

Wednesday, October 11, 2006

BEM VINDOS AO BLOG DE JOÃO TALA

************************************
para iniciar ofereço desde já dois poemas inéditos da minha lavra. prosseguirei à medida do tempo com notícias de mim, notinha biobibliográfica, opiniões e mais trabalhos literários.
finalmente pelo caminho encontro a
mulher que também é um caminho

Aguardada no templo cavaqueada nas assembleias
ela finalmente chegou e trouxe o caminho.
Ela está aqui ébria de pátrias
escava meu recinto,
na circunstância do meu púbis.
Demora um caminho dentro de si
e todo o caminho é uma circunstância!
Conheço o atalho dentro dela.

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liberta-me do esquecimento, mulher


Ela solta o corpo o texto animal
e frutos avultados

Quando prontos os frutos
bebo-lhe noites o odor da manada.

A ela devo as coisas mais elementares:
o suspiro libertador
a primeira água e,

o evangelho deste corpo intacto e húmido;
a água acumulada no meu celibato
como o amor noúltimo cuspo.

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do livro inédito
"tratado d'escombros & traumatologia"