Total Pageviews

Thursday, April 25, 2013

 
EM DEFESA DA POESIA
 
                           ENTREVISTA CONCEDIDA À REVISTA AGULHA EM 2010
 
 
1. Quais são as tuas afinidades estéticas com outros poetas de língua portuguesa?
 
JT No início da minha actividade literária apreciava bastante os poetas angolanos António Jacinto e Agostinho Neto. Eram ainda tempos de pretensões para com a arte poética que definitivamente se firmavam e se enobreciam após leitura de alguns poemas dos franceses Artur Rimbaud e Paul Éluard. Prossegui numa senda diversificada de leituras até encontrar pelo caminho Eugênio de Andrade (português), Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Manoel de Barros (brasileiros).
Muitas leituras continuam a afectar-me, sem a plena certeza de que possua afinidades estéticas com este ou aquele autor, senão com determinado grupo.
 
2. Quais são as contribuições essenciais que existem na poesia que se faz em teu país que deveriam ter repercussão ou reconhecimento internacional?
 
JT Muitos dos principais obreiros desta nação (Angola) eram escritores. O primeiro presidente e proclamador da independência, o Agostinho Neto, era poeta. Muitos outros dirigentes que tinham empreendido uma luta contra o colonialismo português também o foram. Esse acontecimento de valor histórico terá influenciado o surgimento de uma enorme vaga de intenções e consciência literárias, com predomínio da poesia nos anos 80-70 na juventude angolana. Era a década em que se formavam as chamadas Brigadas Jovens de Literatura, em circunstâncias até especiais porque havia a guerra civil. Essa fornada em conjunto com os poetas da geração anterior (70-80) produz textos poéticos significativos, com alto nível literário. Quem estudar analiticamente a poesia angolana, saberá que ela é qualitativamente um dos maiores contributos estéticos na humanização da palavra, e foi por isso mesmo que escritores angolanos presentes no XXII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa (Setembro, 2009),realizado em Salvador/Bahia, surpreenderam positivamente e encantaram os participantes pela qualidade das obras expostas.
 
3. O que impede uma existência de relações mais estreitas entre os diversos países de língua portuguesa?
 
JT Poucos dos nossos governos valorizam políticas apropriadas para o incremento do intercâmbio cultural, na matéria em questão. Além disso há o preconceito. Países com maior responsabilidade na conexão intercultural em decorrência de nível sócio-económico maior e até maiores influenciadores culturais, valorizam equivocadamente mais o que se produz no Ocidente, mesmo de qualidade estética insuficiente, do que o que é produzido nos nossos países.
 

Saturday, April 06, 2013

NO PRELO O POEMÁRIO "RUA DA INSÓNIA - Um Manifesto de Inquietações"


DA EXPLOSÃO QUE SE FEZ RISO


Imagem abismal corpo epíteto

são estas as palavras desfalcadas

meu amor um dia de menos

com inimigos e antiretrovirais

estão aqui as cicatrizes de um outro amanhã

com suas onças de pólvora

com as mãos bárbaras no nervo

e da imagem o riso corpo em explosão

acordados de novo no esquecimento.

 

 

 

 

 

Tuesday, February 19, 2013


IMAGENS DE carência NA OBRA 'A FORMA DOS DESEJOS'
1. (uma prostituta fala a um cego)
tanto país de rumor
neste corpo deslavado

                                    2. (um letreiro num prostíbulo)

o corpo o mundo a volta da bíblia
difícil d’escrever

                    3. (um homem para uma mulher invisível
                        que se chama amor)

AMOR, meu grande amor,
já não posso fecundar-te, majestade
estou cansado e desenraizado

4. sou a paixão aberta
o meu pasto azul é o celeiro
das paixões:

a.       a cigarra encontra o seu canto
        o verso mecânico
 
                 b. como isso, as gotas padeciam
                     de fervura

deixa-me contar-te a ravina parida
no sul. Daqui saltam pedras excitadas
apedrejam o fundo da questão:
o animal d’espírito em sua pele estonteante.

o perfil que se desmorona

púrpura colhida (n) a lavra da multidão
nos olhos da humidade ainda é noitet
trilha esta palavrinha de pequenos peitos
retorna ao fundo inquieto dum belo cordeiro

.......................................

(guarda uma água minina
guarda mais parece teta
de cabra. Orvalho que comi
é uma infância o TEMPO
este moinho breve)

a meio da carência,

balbuciando o mês despeja
a ressaca no barro
alheios os poucos dias
do catecismo pedira
novos ciclos ovulares
a meio da carência
preste à ave atingi
o litoral sanguíneo

ó mulher nulípara

(inteiro ainda o fruto
do teu ventre entre
os nativos
rompo já as vistas
pelo clima da
povoação)

assim é o grão

tamanho de sorvo
ousadia
da estiagem
sinto
a casca
aflição hepá-
tica da
cifra
caseira
inflação
ementária,

       assim é o grão

Dessalariado

da semana sem acordes cumprira
os dias conquistados

o mês dessalariado busca
os bolsos do labirinto:

trago nos bolsos da geração
o peso das calças

o ventre que soçobra no sonho da plebe

(tocando risos de
esperas libertárias
sobre o dorso de
uma das ONG’s sub
alimento o ventre
aceite já p’la noite
esse divumu que
soçobra no sonho
da plebe)

 

 

Wednesday, January 30, 2013


 

PROCURANDO VITÓRIA DYA NHANGA NO POENTE

 

 

 
No bar do Manecas costumava repassar as horas. Às vezes, o vilão dono do bar, o tal do Manecas que gostava de fazer braço de ferro comigo, mandava-me ocluir os olhos sonolentos, lá longe da sua herdade. Ontem foi mais um desses dias, podre de vinho. A minha bolhosa respiração, de completa embriaguez, precipitara a irritação do magnata. Gesticulei um soberbo manguito e... asei.
              A EDEL não tinha reposto a corrente eléctrica, por isso, furei pela noite; às apalapadelas apeava-me no meu bulício; vinha do vinho carregado de mazelas, para o meu recanto. Mas...
              Ai a minha vida!  Vitória dya Nhanga, com quem assentava o pensamento, os anos necessitados e o lar, não estava em casa com o habitual fogo da sua conversa: “estás nem podre; tresandas alambique, blá blá blá”. Aonde foi, também não sei.
Tropeço em procuras: “ó senhor, viu uma mulher comprida, cara oval, longas jubas, bonita assim, assim?”
              - Espera ali – ordenou, fingindo que pensava –, mas é b’leza demais pra mulhê cá das nossas. Na ilha tem algumas coisas assim, vá até lá.
              Eis uma sugestão na hora certa. Vitória noutros passados fugira da nossa solidão para refrescar uma memória tão somente de ausências. Se lembro Vitória dya Nhanga, sete anos sete ausências. Depois do casamento iniciei a frequentar o Maneca’s Bar. Não para azedar-me, não. Por outros motivos, o ambiente por exemplo. Ouvia os meus compadres: “bebo para esquecer a guerra”. Eu não tinha guerras. E a guerra deles, das mais das vezes, não passava de puros atritos conjugais.
              Dilaji autêntico ngadiama dos diabos, o vinho começou a ser maior do que eu. Ausentava-me da estrutura familiar; dinamitava os direitos dela lá em casa; tornava nossas vidas mais sentenciosas.
              Peguei-me, rumo à Ilha do Cabo, rumo ao pequeno poema que Nzambi pôs no mundo. A Ilha é o desejo do Criador. Fica mesmo ali, no Pôr do Sol. E eu numa hora igual, procuro uma mulher, emocional e lírico.
              Com licença – pedi na primeira casa que abordei. Enquanto aguardava certifiquei-me do reclame “CASA DA INFÂMIA 2000”. (“Bem – pensei –, ainda só estamos em 1988; estão adiantados logo dois anos”).
              “Aqui, pouco adianta pedir licença” – atirou-me uma voz lá de dentro. Contudo, entrei.
              - Por favor, senhor, aqui não está Vitória?
              - Qual Vitória?
              - Vitória dya Nhanga, senhor.
              - Espera aqui – disse um pouco atrapalhado – vou perguntar na minha mulher. Esposina, conhece Vitória?
             A senhora veio mais p’ra cá. Uma trouxa com uma oração estridente, mas um sorriso perturbador. Conhece não só uma Vitória mas trinta ou quarenta delas. Ela e o bandido tratam de nomes femininos com profissionalismo. Agradeci o excesso mas não pude deixar de convocar do fundo da minha alma, um palavrão e... asei.
             Casas que fazem negócios? Não entendo. São manjedouras?! Não vou mais em nenhum desses sítios que poluem a vida turística.
              Seguidamente então que me aparece a sorte: o mano Tamba Quibebe!
              O mano Tamba é um género do mar. É uma das pessoas com o risco de vida no mar; na terra só hora de ancorar, trazer seus peixes p’ro povo, reagrupar redes, anzóis, mantimentos. Do mar ele conhece até a voz. Essa água grande, imensa, que nós vemos todos os dias azul e inanimada também tem uma voz. Com  minha sinceridade falava “tu, mano Tamba, és um peixe/humano”. Pelo que respondeu: “não faz mal, irmão; peixe é vida”. Ele só falava essas pequenas palavras.
               A conversa ficou desanimada quando lhe falei dessa maka com a esposa. Depois apareceu um velho seu amigo, dado às danças. Ele marchava em passo de dança. É do “Mundo da Ilha – um grupo de carnaval – vai um toque na areia, ualá-láá.
               Na Ilha o carnaval é doença (a conclusão é minha).
               O mano Tamba contou no amigo a maka que tenho no dia a dia com Vitória. Este encheu um discurso: “ Luanda começou a escurecer; mudavam-se os nomes, alguns dos quais tinham sido os mais certos. Com novas roupagens deram um nome ao carnaval: Carnaval da Vitória. Hoje não sabemos que nome virá depois. Estou velho para tantas mudanças...” – o velho interrompeu-se: “porque procura Vitória, é esposa do mano? Então procura, eu não lhe vi. Quem procura acha”. Obrigado pela grande ajuda, amigo.
                - Como é que essa moça é? – perguntava de novo o velho, agora pela sétima vez.
                Mano Tamba e o velho ajudavam na busca. Levávamos longe a nossa procura. Em certo lugar avistamos um recinto coberto com folhas e ramos de coqueiros, em cujo átrio, onde os protestantes costumavam entoar hinos de louvor, uma multidão aclamava, agradecendo a Deus pelo último milagre.
                Qual milagre? O amigo do mano Tamba sugeria que investigássemos o local porque, segundo ele, esse constituia o mais espectacular de todos os caminhos.
                O dono do local estranhou-nos. Levantou-se e sacudiu no velho com fortes abanões: “que abuso é este, ein? Anda, fala”.
                - Aqui há Vitória? – disparou incisivamente o velho.
                - Não, só peixe – respondeu o proprietário apontando para o centro do cenário sufocado de outras gentes (turista?) onde uma mulher jazia húmida sobre o manso tapete de areia.
                 - Aquilo é um peixe? – indaguei perplexo, já cá comigo desconfiando de bruxaria, dessas que metem uanga e calemas.
                 - Peixe, não. Só o rabo – responderam os loucos pelo espectáculo. Feirantes, turistas, pescadores, homens do mar e da terra, gritavam emocionados. Haviam e tudo baptizados o espécime com nomes que a nomenclatura marinha não prediz “Mulher-Peixe”, onde já se ouviu? “Maria-Macoa” o quê?, não é nome nem de gente nem de peixe; Joana-Corvina”? Pior.
                À boca do mistério exclamei: “oh! São os mesmos olhos e os mesmos lábios; os mesmos peitos. Os mesmos encantos que me fizeram seu homem”. O meu espanto desembocava num espasmo verbal. Ouviram-me homens do mar, longe da terra. Não era uma loucura. Eu sonhava (“era quase o perfil de Vitória”).
                Os meus olhos encontraram os dela no fim da tarde. É a hora do mundo quando os pintores retratam um mar sob o poente. Sonhar assim não faz mal.
                Mano Tamba me aconselhava: “vai p’ra casa irmão, acaba de sonhar lá. A Ilha é boa, tem belas coisas mas não estás habituado a ela”.
               - Está bem, mano Tamba; ELA voltará. Convence-a a voltar.
               - Espera aí. Por que tratas por “ela” com letras grandes?
               - Porque ela merece – respondi.
               Mano Tamba primeiro pôs-se a rir  com aquele riso abocanhado, vagaroso, cheio de kitaba dentífrica, para depois contrariar: “não há mulher, por mais puta que seja, que mereça o pronome em letras gordas”.
               - !!! – estupidifiquei-me.
               A última parte do mano Tamba Quibebe ferira-me profundamente que tive de contar ao Manecas. Enquanto contava suscitava curiosos. Voltava a contar. Outros mais chegavam, pediam que a recontasse. Inexplicavelmente havia mais palavras dentro do conto – uma, duas, três... vinte vezes – quando a boca se cansou de contar e o conto cansou a noite; a noite fez o vinho e cansou a mente. Finalmente Manecas resumiu: “também não conheço tipa alguma que mereça o p.p. em letras enormes. Esse tal do mano Tamba deve ser um gajo muito esperto”.
                Recolhi-me a pensar meus episódios. Sorvia uma quente ilusão na despreocupação do «scotch». Sei dos balbucios, dos olhos que me tomam a direcção. Falam, agradeço. Agradeço ainda ao ridículo que escutam da minha situação. Não sei mais onde tive de sonhar estórias para as reeditar na mesa de bar.
Fim, THE END – comos filmes – c’est fini, diabos!
 
in Os Dias e os tumultos - contos

 

 

 

Friday, January 18, 2013


 

SEM IGUAL. SOBRE QUALQUER TORMENTO
Ixi yami mw tandu ya ilwezu

 

sem igual país fecundado no meu tambor
país deste novo rosto novo
toma uma bandeira meu escuro pensamento
ou abraça-me agora que sinto a memória
criando raízes.
e escuta agora mesmo a minha língua
nas tuas raízes. escuta só, pensamento.

 

Tuesday, December 25, 2012


(inéditos)

EM ÊXTASE CORAÇÃO
DE UM POETA

 

coração aos poucos
passos de uma caravana

coração diz e desdiz
enredo
sílabas à galope

guarda-te sentimento alheio
deste chegar aos pulos

como uma taquicardia
o corpo

em sístole & diástole
meus cavalos em fuga.

 


PERDEU O SONHO


o pedinte vai aos sonhos: supermarket
psicadélico. psicodelícia. vegetatividade.

um erro de afrontas
o ‘não-sonhado’
corpo em cheio

(eu já sabia o
desbocado “não”)

indizível descartável negativo
consumismo em transe.

 

 

 

 

 

Thursday, October 25, 2012

DESCER À CHUVA

chega dos rumores tece um parto à chuva
sua bruma é o leite da manhã
tem duas ânforas dispersas no peito
e alimenta os nervos à flor das paixões.

também eu desci à chuva cede-me uma ânfora;
havemos de conversar carne na carne;
na bruma da sua pele produzimos a língua;
os nossos nervos aproximam-se
como duas aves lânguidas  tomadas de espasmos.

O PARAÍSO NÓS O PERDEMOS EM BUSCA DO CORPO

Dos teus medos desliza a serpente nativa
esta se ausenta dos nossos murmúrios
e o seu rasto cega-nos.

Nesse pasto cheguei depois de ti
e já o mundo perdido, amava.
Canções do corpo suspiravam
de atentos tambores urdidos no esquecimento.

Os frutos insaciáveis repartidos em nós
e o hino húmido de palavras que nos excitam
são palavras desafortunadas,
comemo-las e fenecemos.

O paraíso era apenas uma  ideia
que ainda nos deixa de bocas aguadas.
Por agora busque-me, contigo moverei
a serpente nativa.

in " A Vitória é uma Ilusão de filósofos e de Loucos"

Sunday, October 07, 2012


 

Antonio Cisneros, poeta peruano, deixou cair um poema e foi embora. Deixa este mundo aos 69 anos.
O poema cá está ainda.

 
ORAÇÕES DE UM SENHOR ARREPENDIDO

1. QUANDO O DIABO ME RONDAVA
ANUNCIANDO SEUS RIGORES


Senhor, enferruja meus garfos e medalhas, estraga estes molares
enlouquece meu barbeiro, os servos
sejam mortos em suas camas de madeira, mas livra-me do Diabo.
Com seu cheiro de cachaça e os cabelos enlameados
se aproxima de minha casa, já o surpreendi
caído entre os vasos de gerânios, enrugado e nu.
Estou um pouco gordo, Senhor, espero teus rigores, mas não tantos.
Envelheci nas batalhas, os ídolos morreram.
Agora espanta o Diabo, leva estes gerânios e meu coração.
Faça-se a paz, amém.

Friday, September 28, 2012

filosofia da mulher e do homem

os filósofos africanos disseram o corpo da mulher
                                                                   [abunda
como um espasmo;
o corpo do homem perde-se na abundância da
                                                                    [mulher
e fortalece espasmos como gritos à chuva.

temos as mãos pedindo à chuva que aguarde os
pastos. lá onde as nuvens tomam formas e lugares.
e o caminho por onde as nuvens entraram,
ramifica-se. apenas deixamos espalhados os
vocábulos da semente aprendendo doar vidas.

art & ngoma

tuas velhas mãos derrubam-me sobre o tambor.
da hipotética morte ressurgirei
desiquilibrado do pó; ante o evangelho melancólico
de teus tambores, majestade, ressurgirei.
e porque sou catequista recolho a notícia dos corpos
soltos no meu grito: do mundo apenas sei esse mexer
de coisas quebradas e a civilização do pó.

o que as mãos tropeçam

O meu salário é aquilo que as mãos tropeçam;
é um ganho insatisfeito.
Eis o meu caminho detrás de outro caminho.
Já o meu sonho é ganhar a época.
Repito o salário aquilo que as mãos tropeçam
destrocam-me o dilema em miúdos.
Hoje tenho tão só de ouvir o tempo com
as orelhas no esquecimento.
E canto como era a boca sem povo.
É este o caminho que não foi escutado.

in Lugar Assim
2004

Saturday, September 08, 2012

                                  (!)

(vivo. luto pelo que exprimo. sobejam princípios.
sangrando germino. não lutando me devoro.
esperar é demolir a expressão. calar-me é
inaceitável. o vazio. buraco no sonho. um saco.)

                               
                            ELA ARDE

os sonhos dela ardem e tornam-se vivos;
vivos os nervos entre as gotas do incêndio.
ela arde e transpira os comícios á beira do leite.
virei beber o lume do seu corpo suado;
virei porque o amor arde de febre e não tem cura;
virei porque ela chora de branco apeada sobre a
própria noite. e vejo o seu corpo renovado.

in «a vitória é uma ilusão de filósofos e de louco»s

Sunday, August 19, 2012


o mundo recriado a partir
dos olhos duma mulher



Sou a palavra que você não disse
o nome que você não chamou.
Contigo viverei palavras desiguais
palavras ardidas na língua que as prolonga;
palavras perdidas e procuradas
onde tentas o sonho
(não há mais nada para sonhar?)
Sou a palavra que você não disse
uma canção ao maravilhoso.
As páginas perseguem-me e
da retórica colhes os números;
mas os números não dizem nada
- são preocupações do pouco,
sem as contar sem as procurar.
Eu sei, nos teus olhos, mulher
se eleva o pensamento;
dos teus olhos, mulher
Deus recriará o mundo.
Assim fora o começo d’olhos pensados
nas mãos de Deus.


CÓDIGO FEMININO


Acabaram agora mesmo de escrever um
                                                    [poema.
A escrita é feminina as palavras são
                                                [mulheres.
Nascimento, dá-me a sua invenção de
                                                    [formas
deixa perceber a palavra sou um homem.
Para um homem que nasce pátria é um
                                                       [útero.
É esperto aquele que inventou a vida numa
                                                    [palavra.
Aquele sabe a mulher sedada de noites puras,
sabe a fórmula de mulher começa com U.








Wednesday, August 08, 2012








SONHOS VIVEM









Todas as pessoas históricas

cederam-me suas épocas.

O soba expressa a escrita diluída

e mergulha à raiz.

Ele diz-me rios que se abatem em nós,

toda essa água para o chefe

diz-me amadurecia o tormento

daquela gente que vem desobstruir

o murmúrio do acordar.




Sunday, July 29, 2012









LUGAR ESCASSO




Tenho um ordenado que alimenta o nome

e estou cheio de significados.

Eu suplanto o próprio nome

com essa caneta em criação

revivido leitor de políticas acesas

passo a caneta de mão em mão assino

a prometida página da discórdia

de fronte ao meu panfleto: lugar escasso.




Wednesday, June 13, 2012


A QUESTÃO DOS INCÊNDIOS


         Eu e a Lucrécia estávamos apreciando os fogos – que depois julgamos ser o fogo da Despertação. Lúcidos, muito estriados de barras, alguns com contornos azul e laranja. Os fogos faziam barulho bum... bum bum... Eu estava a esfregar ainda os olhos dormentes porque despertava de um sonho estúpido em que ladrava com os cães. Mas aquilo é quê? – foi a primeira pergunta que fiz quando os rumores de fogo me bateram os tímpanos, mas Luci já cá fora cantava num mundo de novo iluminado.
          O mundo está a nascer de novo! – ludibriava-me o próprio pensamento quando vi a lua, farta e colossal sempre espumando no alto. Os fogos voavam, alindavam o tempo. Não é o mundo a nascer de novo, meu querido; são anjos, anjos de fogo. Alguns têm asas enormes, vê-los!
         Anjos de fogo?! Mas quem é a Luci para alimentar o que não está na bíblia? Mentalmente eu desapontava a crença que a Lucrécia tinha bem entranhada na leveza da sua alma. Aquela luminosidade não é fogo. É parente do fogo – disse-lhe.
         O vizinho Pedro – a quem Luci chamará sempre a alma do diabo para o resto da vida – entrou aos tropeços e encaminhou-se até ao fundo do nosso quintal onde eu e ela misturávamos os cânticos. “Incendiaram o paiol vamos fugir...”. Luci não o escutava. Luci ressalvava os cânticos.
         Passadas duas horas, Luci não conseguia dormir. Dizia e repetia, sentia o corpo ardente, para voltar a dizer que o que sentia não era fogo na carne mas sim um espírito quente. Mal recomecei a dormir senti o ladrar dos tormentos. Dessa vez eu não ladrava com eles. Eles é que ladravam dentro do meu corpo. Tremia e transudava ao ritmo dos cães. O sonho foi aumentando de enredo. A certa altura, a gritaria da matilha pouco faltou que me levasse à explosão. Ainda a sonhar comecei a expulsar de mim os kalundus e os caninos. Xinguilava. O lençol ficou encharcado de suor.
         Lucrécia voltara ao pátio. Contei-lhe que havia cães povoando meus sonhos. Ela aconselhou-me a aquecer o corpo bebendo chá quente, pois ela estava a sorver chá de caxinde, com maturidade, com elegância, como exige a bebida. Tomei-lhe a caneca do mesmo jeito suburbano.
          No entanto, a lua continuava a espumar. Mais fresca saltava a madrugada e Luci continuava a sentir-se aquecida na alma. Tu estás louca Luci; não é o espírito quente, estás com febre! Ela não dormiu. Nunca mais voltaria a dormir. Às noites fazia uma fogueira e achegava-se muito perto dela; no quarto de dormir espalhava castiçais, velas vermelhas, amarelas, azuis, verdes, e rezava para que as noites continuassem quentes e húmidas.
         Um dia desses fiquei muito assustado porque Lucrécia estava a tremer de febre interna, e resolvi procurar um médico. De volta, estava ela já em coma. Os olhos dela continuavam abertos, vivos; o corpo estava ainda muito quente; a respiração aprisionada mas o coração via-se ainda a saltitar no peito.
         - Febre tifóide – disse o doutor. – É por causa da água.
         - Não posso entender, senhor doutor. A nossa água é bem fresquinha, da geleira; mesmo whisky o sorvemos com gelo. Esta febre é do fogo. Ultimamente ela própria se junta ao fogo. E conta p’ras visitas que os anjos são de fogo. Não será uma loucura qualquer?
         - A nossa água não é tratada, rapaz. Mata mais de cem por ano, só na capital.
         Só me restava esta! A água de beber também mata. Tenho de ferver e decantar a água como se estivesse a preparar uma ementa.
         - Senhor doutor não é melhor pôr antibiótico directamente na água? Carvão está muito caro nas praças.
         Luci sucumbia. Vi com meus próprios olhos, estes olhos que a terra há-de comer, que expelia pela boca, línguas de fogo. Luci sempre foi uma mulher muito quente, mas não podia eu acreditar que o seu corpo produzisse labaredas. Mas vejamos: se na verdade a pureza dos anjos é quente – pois ela falava de anjos de fogo –, então ela própria era, inadvertidadmente, um anjo na terra.
         Depois (então) começo o verdadeiro conto. Desses que eu respiro dos anos acontecidos n’Àfrica exótica, tropicalíssima. Nunca que eu senti uma paz com a cor do anjo. Nunca. Foi só quando recomeçou o tiroteio. Na altura falava-se já do sangue quente: nós com o sangue aquecido? O cheiro da pólvora é um doce querer no corpo interior? Ah, não. Nas mochilas enchemos granadas. Os reclames e os panfletos estavam bem prontos de nos educar: “vamos lá fazer a guerra para acabar com a guerra.”
         Aié! Guerra pela paz?! Na óptica de Luci a paz é quente e os anjos são de fogo. Logo, a paz é isso: nasce dos incêndios. Estou finalmente a perceber... a questão dos incêndios!

in os dias e os tumultos

        






Sunday, April 29, 2012


PALAVRA ENSOPADA



palavras bonitas como a palavra mágica.
nascente uma palavra moça, recorrente.

palavra menstrual, rosada.
a rigor o mês assiste o vocabulário
da permuta,

a palavra volúpia teu sexo repleto de pássaros
notas mágicas teus olhos cheios de plan(e)tas
muitas palavras por dizer ou rasgar
quando comes os frutos ensopados;

quando do fruto tens palavra sentir: formas e dores;
e caber na forma palavra nutrir.


CABINDENSE

mulher de cabinda aparada de
navalhas mas ilesa
aquela que bebe da nascente
cheia de enclaves uma lua
me faz enorme e pública no
átrio cristão do seu ventre.



NO FIM DAS TUAS PUPILAS


parece um bosque de pétalas amarelas.
o bosquímano tem um bosque verde
o poeta amareleceu. caótico. diga.

gemente. a luz. a gema.
no fim das tuas pupilas

amor vítreo. humor vítreo.
água ensolarada água. pálida. humor.
os teus olhos têm clara ideia do que eu peço
para beber?

ideário. amor. rio.
só pode ser vulvar.

um vulto. doce. partiturra.
na carne uma uva. ou aquário.

meus triste olhos tristes
não os peças que desmanchem
teu último corpo.
a ideia segue cega.
isto é: trapos de poesia.


LIBERTA-ME DO ESQUECIMENTO, MULHER


Ela solta o corpo o texto animal
e frutos avultados.

Quando prontos os frutos
bebo-lhe noites o odor da manada.

A ela devo as coisas mais elementares:
o suspiro libertador
a primeira água e,

o evangelho deste corpo intacto e húmido;
a água acumulada no meu celibato
como o amor no último cuspo.




Monday, April 02, 2012

CAMPANHA




De comício em comício,
reboliço
espalho notícias com pão
fresco: eleições
bandeiras quanto eu pestanejo
está aqui a minha garganta,
senhores
eu voto de borla.
O pão simples questão de
pobreza
peço um voto para não
empobrecer
sou Filho da Incerteza por
isso mesmo
puxo o saco do povo.

Monday, March 26, 2012

OBITUÁRIO



Onde ouvidos repetem pequenas ruínas
sobra o revólver sobre dias túmidos
para decretar morte é como ninguém
para aumentar áfricas laboratoriais e
o latifúndio;
depois dá um tiro na cabeça da história
tal como tropeça no meu palavrão sem
nada para acrescentar à morte sem
nada para contar à vida
sem ser nunca o nome da multidão.

Saturday, March 10, 2012


Na ressaca de “canto dos novos poetas e o parto difícil da nação”
de Norberto Costa.

Publicado no Jornal de Angola e retomado por determinado blog, o texto de Norberto Costa sobre as últimas gerações literárias no contexto angolano, fornece importantes elementos contribuintes para a historiografia da literatura angolana dos últimos tempos. Ter-me-ia passado despercebido porém, uma apreciação crítica, contundente, afectando a mais recente geração, com que o Norberto finaliza o artigo, desencadeia a via pela qual o texto veio parar à minha mesa de trabalho. Olhemos o que diz:
“Nos últimos anos, a par da consolidação deste legado literário que já é secular, o valor acrescentado da actividade ficcional e poética dos novos autores, afirma-se, reafirma-se e firma-se no meio de um novo surto. Este de maus poetas. O défice que muitas dessas obras acusam em termos de qualidade, publicadas pelos mais novos dos anos 2000/2010, revela as limitações de vária ordem que os “novos aventureiros” da arte de escrever enfrentam, a par da falta de leitura aturada e o deficiente conhecimento da língua portuguesa. Ainda estamos longe de ver emergir uma nova geração de poetas de qualidade literária reconhecida como nos finais dos anos 80 e princípios dos 90.”.
.
Maus poetas! Por pouco não daria então caso de polícia. Devo lembrar que o princípio de valoração de qualquer geração fundamenta-se à produção estética dos seus elementos. Esta valoração recai sobre a(s) obra(s) e não sobre o(s) seu(s) executor(es). É Ortega y Gasset quem nos transmite este princípio quando afirma «o mau em estética é a insuficiência». Pois, que se não há obras literárias, não há geração literária. Claro está que vemos deficiências de toda ordem que NC ressalta no domínio da leitura e da língua, mas isso também aconteceu com a geração precedente, até à selecção natural que o tempo impôs. Mas dizer que ainda estamos longe de ver emergir uma nova geração de qualidade reconhecida, é vago, gratuíto, meramente futurista. Luandino Vieira, um “velho” escritor à leme do barco das gerações, disse certa vez (não preciso dizer onde) “as gerações literárias respondem às perguntas do seu tempo” – citei de memória. Cabe-me aqui exprimir o que afirmei certa vez a um amigo: hoje os novos escritores, marcados pelos antecedentes (recentes) da própria historia literária, já nascem vigiados. Poderá não haver
explosão, surto, ou coisa similar. Apenas escritores comprometidos com seus próprios sonhos e com suas inquietações, que passam pela realização estética. Norberto Costa deve ter limitado suas leituras e estacionado nos anos 80-90. Ora, para partilhar meus considerandos vou lembrar a quem me ouve alguns (concordo que não muitos) novos escritores, surgidos na última década.
.
Ondjaki: um ficcionista de franco gabarito. Escreve de modo simples mas com grande atitude literária, com uma qualidade que deslumbra. Positivamente é um escritor cuja obra pode ter sido influenciada, dentro de uma rica analogia, por Luandino Vieira e por Mia Couto. É por sua qualidades que é um escritor laureado aqui e fora. Um “raro” ficcionista... Quem dirá que não?
.
Abreu Paxe: revelado no concurso “prémio António Jacinto que venceu com o meteórico inconformismo de textos que me parecem ser poemas, o seu segundo livro intitula-se “O Vento Fede de Luz” que é com certeza uma coisa nova, viva e rutilante no poemário nacional. É lê-lo sem preconceito. Este professor de literatura que também se destaca como ensaísta, crítico e conferencista, interage com o rotulado neo-barroco (gosto pouco disso mas enfim...), com o centro enraizado no sudeste do Brasil, onde ele é todavia cartaz chamativo por razões estéticas. Dizem que está inovando... Bem, um “raro poeta.
.
Gociante Patissa: é lê-lo, é fascínio. Tudo é. Seus poemas são de grande nível estético. Maior ainda a ficção que leva seu primeiro livro de contos, com ele a pintar estórias com a tinta do surrealismo umas vezes e do fantástico outras. Concluo que bebeu do chá dos latinos americanos etc. etc.. O seu interesse por ideias, o seu autodidatismo, ajudaram-no a criar o blog Angola, Debates & Ideias que julgo ser um dos melhores blogs no contexto da CPLP, onde além de tudo emprega uma dinâmica estético-literária bastante criativa. É verdade.
.
Pombal Maria: o mais ousado experimentalista dessa geração. Apresenta uma cartilha multifacética, onde estaria evidenciada a Escola de São Paulo – lembram-se dos concretistas? – quer a “desenhar” poemas ou a escrevivê-los, o poeta é autêntico. Ele tem... Sim, teemm. Quem lhe deu? Ningi?
.
Nok Nogueira: prémio António Jacinto em 2004 (estou certo?), a sua poética é algo bem conseguida, todavia acredito que há-de evoluir mais ainda, conforme deixa perceber o texto. Não o ignorem.
.
Sónia Gomes: uma ficcionista em progressão, como aponta o seu último livro “A Filha do General”. É simples e metódica, sobretudo muito imaginativa.
.
Carlos Pedro (Poeta quê? Frustrado porquê?), David Capelenguela e Nguimba Ngola. Estão a suar, percebe-se. Vá logo alguém achá-los à partida de maus... Ninguém merece.



Friday, January 27, 2012

Continuo a falar Poesia. Sim, continuo. Em perspectiva um novo poemário. Se possível para este ano. Eis algum dos poemas


PASSEIO NA RUA NJIGA MBANDI



Noite tão preta como um eclipse.
Njinga, aqui perto
vem de novo. A vida exaurida
o preto bantu dos seus cabelos enormes.
Não sei de cor o passado
não sei se o passado já passou
apenas sei que chagas antigas
são a minha língua.
A rua onde ela mora é uma dor intensa,
sei também: um poema fatigado
começa no passado conserva a preta escrita
e comigo tece a forma de uma briga
com a guerrilha que nos vem do sangue.

Monday, December 26, 2011

Inéditos publicados neste Blog em 2006, que julgava esquecidos
**
tudo parece que foi ontem
*
por um dia de parto
escreve-se um comício:
tudo parece ontem
o hospital e o paraíso.
os mesmos anjos
no limite d'ervas.
estamos reunidos com o doutor do
mundo
ninguém escreverá uma dor que seja.
*
no meu caderno de palavras prosseguem os rascunhos, certo
dia que ouço o barulho que vem da cozinha, os curtos passos de uma mulher
atarefada, atarantada, bailo naquele átrio, o barulho próprio das cozinhas, a
imaginação compõe uma orquestra. inédito absorvível, provavelmente ainda não
concluído. eis...
.
LABORATÓRIO
.
Tagarelando a orquestra teus utensílios
cada vez mais teus sons o toque de um copo
uma tampa rolando o ruído da frigideira
tangível teu corpo deste ímpeto informe
mãos no olfacto som no paladar,
água na fervura. você me aquece,
.
cheia de temperaturas
em todo teu corpo houvera uma tempestade:
o corpo candente
a farinha branca
a panela a ferver e eu a ferver
.
fogo no espírito, operária
de novo venho entregar-me
faço parte dessa fórmula secreta
aprontada em ponto de fogo.