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EM DEFESA DA
POESIA
ENTREVISTA CONCEDIDA À REVISTA AGULHA EM 2010
1. Quais são as tuas afinidades estéticas com outros poetas de língua
portuguesa?
JT No início da minha actividade literária apreciava bastante os poetas
angolanos António Jacinto e Agostinho Neto. Eram ainda tempos de pretensões para
com a arte poética que definitivamente se firmavam e se enobreciam após leitura
de alguns poemas dos franceses Artur Rimbaud e Paul Éluard. Prossegui numa senda
diversificada de leituras até encontrar pelo caminho Eugênio de Andrade
(português), Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Manoel de
Barros (brasileiros).
Muitas leituras continuam a afectar-me, sem a plena certeza de que
possua afinidades estéticas com este ou aquele autor, senão com determinado
grupo.
2. Quais são as contribuições essenciais que existem na poesia que se faz
em teu país que deveriam ter repercussão ou reconhecimento
internacional?
JT Muitos dos principais obreiros desta nação (Angola) eram escritores. O
primeiro presidente e proclamador da independência, o Agostinho Neto, era poeta.
Muitos outros dirigentes que tinham empreendido uma luta contra o colonialismo
português também o foram. Esse acontecimento de valor histórico terá
influenciado o surgimento de uma enorme vaga de intenções e consciência
literárias, com predomínio da poesia nos anos 80-70 na juventude angolana. Era a
década em que se formavam as chamadas Brigadas Jovens de Literatura, em
circunstâncias até especiais porque havia a guerra civil. Essa fornada em
conjunto com os poetas da geração anterior (70-80) produz textos poéticos
significativos, com alto nível literário. Quem estudar analiticamente a poesia
angolana, saberá que ela é qualitativamente um dos maiores contributos estéticos
na humanização da palavra, e foi por isso mesmo que escritores angolanos
presentes no XXII Congresso Internacional da Associação Brasileira de
Professores de Literatura Portuguesa (Setembro, 2009),realizado em
Salvador/Bahia, surpreenderam positivamente e encantaram os participantes pela
qualidade das obras expostas.
3. O que impede uma existência de relações mais estreitas entre os
diversos países de língua portuguesa?
JT Poucos dos nossos governos valorizam políticas apropriadas para o
incremento do intercâmbio cultural, na matéria em questão. Além disso há o
preconceito. Países com maior responsabilidade na conexão intercultural em
decorrência de nível sócio-económico maior e até maiores influenciadores
culturais, valorizam equivocadamente mais o que se produz no Ocidente, mesmo de
qualidade estética insuficiente, do que o que é produzido nos nossos países.
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Thursday, April 25, 2013
Saturday, April 06, 2013
NO PRELO O POEMÁRIO "RUA DA INSÓNIA - Um Manifesto de Inquietações"
DA EXPLOSÃO QUE SE
FEZ RISO
Imagem abismal corpo
epíteto
são estas as palavras
desfalcadas
meu amor um dia de
menos
com inimigos e
antiretrovirais
estão aqui as
cicatrizes de um outro amanhã
com suas onças de
pólvora
com as mãos bárbaras
no nervo
e da imagem o riso
corpo em explosão
acordados de novo no
esquecimento.
Tuesday, February 19, 2013
IMAGENS DE carência NA OBRA 'A FORMA DOS DESEJOS'
1. (uma
prostituta fala a um cego)
tanto país de rumor
neste corpo
deslavado
2.
(um letreiro num prostíbulo)
o corpo o mundo a volta da bíblia
difícil d’escrever
3. (um homem para uma
mulher invisível
que se chama amor)
AMOR, meu grande amor,
já não posso fecundar-te, majestade
estou cansado e desenraizado
das paixões:
a.
a
cigarra encontra o seu canto
o verso mecânico
b. como isso, as gotas
padeciam
de fervura
deixa-me contar-te a ravina parida
no sul. Daqui saltam pedras excitadasapedrejam o fundo da questão:
o animal d’espírito em sua pele estonteante.
o perfil que se desmorona
púrpura colhida (n) a lavra da multidão
nos olhos da humidade ainda é noitettrilha esta palavrinha de pequenos peitos
retorna ao fundo inquieto dum belo cordeiro
.......................................
(guarda uma água minina
guarda mais parece tetade cabra. Orvalho que comi
é uma infância o TEMPO
este moinho breve)
a meio da carência,
balbuciando o mês despeja
a ressaca no barroalheios os poucos dias
do catecismo pedira
novos ciclos ovulares
a meio da carência
preste à ave atingi
o litoral sanguíneo
ó mulher nulípara
(inteiro ainda o fruto
do teu ventre entreos nativos
rompo já as vistas
pelo clima da
povoação)
assim é o grão
tamanho de sorvo
ousadiada estiagem
sinto
a casca
aflição hepá-
tica da
cifra
caseira
inflação
ementária,
assim é o grão
Dessalariado
da semana sem acordes cumprira
os dias conquistados
o mês dessalariado busca
os bolsos do labirinto:
trago nos bolsos da geração
o peso das calças
o ventre que soçobra no sonho da plebe
(tocando risos de
esperas libertáriassobre o dorso de
uma das ONG’s sub
alimento o ventre
aceite já p’la noite
esse divumu que
soçobra no sonho
da plebe)
Wednesday, January 30, 2013
PROCURANDO VITÓRIA DYA NHANGA NO
POENTE
No bar do Manecas costumava
repassar as horas. Às vezes, o vilão dono do bar, o tal do Manecas que gostava
de fazer braço de ferro comigo, mandava-me ocluir os olhos sonolentos, lá longe
da sua herdade. Ontem foi mais um desses dias, podre de vinho. A minha bolhosa
respiração, de completa embriaguez, precipitara a irritação do magnata.
Gesticulei um soberbo manguito e... asei.
A EDEL não tinha reposto a
corrente eléctrica, por isso, furei pela noite; às apalapadelas apeava-me no
meu bulício; vinha do vinho carregado de mazelas, para o meu recanto. Mas...
Ai a minha vida! Vitória dya Nhanga, com quem assentava o
pensamento, os anos necessitados e o lar, não estava em casa com o habitual
fogo da sua conversa: “estás nem podre; tresandas alambique, blá blá blá”.
Aonde foi, também não sei.
Tropeço em procuras: “ó senhor,
viu uma mulher comprida, cara oval, longas jubas, bonita assim, assim?”
- Espera ali – ordenou, fingindo
que pensava –, mas é b’leza demais pra mulhê cá das nossas. Na ilha tem algumas
coisas assim, vá até lá.
Eis uma sugestão na hora certa.
Vitória noutros passados fugira da nossa solidão para refrescar uma memória tão
somente de ausências. Se lembro Vitória dya Nhanga, sete anos sete ausências.
Depois do casamento iniciei a frequentar o Maneca’s Bar. Não para azedar-me,
não. Por outros motivos, o ambiente por exemplo. Ouvia os meus compadres: “bebo
para esquecer a guerra”. Eu não tinha guerras. E a guerra deles, das mais das
vezes, não passava de puros atritos conjugais.
Dilaji autêntico ngadiama dos
diabos, o vinho começou a ser maior do que eu. Ausentava-me da estrutura
familiar; dinamitava os direitos dela lá em casa; tornava nossas vidas mais
sentenciosas.
Peguei-me, rumo à Ilha do Cabo,
rumo ao pequeno poema que Nzambi pôs no mundo. A Ilha é o desejo do Criador.
Fica mesmo ali, no Pôr do Sol. E eu numa hora igual, procuro uma mulher,
emocional e lírico.
Com licença – pedi na primeira
casa que abordei. Enquanto aguardava certifiquei-me do reclame “CASA DA INFÂMIA
2000”. (“Bem – pensei –, ainda só estamos em 1988; estão adiantados logo dois
anos”).
“Aqui, pouco adianta pedir
licença” – atirou-me uma voz lá de dentro. Contudo, entrei.
- Por favor, senhor, aqui não
está Vitória?
- Qual Vitória?
- Vitória dya Nhanga, senhor.
- Espera aqui – disse um pouco
atrapalhado – vou perguntar na minha mulher. Esposina, conhece Vitória?
A senhora veio mais p’ra cá. Uma
trouxa com uma oração estridente, mas um sorriso perturbador. Conhece não só
uma Vitória mas trinta ou quarenta delas. Ela e o bandido tratam de nomes
femininos com profissionalismo. Agradeci o excesso mas não pude deixar de
convocar do fundo da minha alma, um palavrão e... asei.
Casas que fazem negócios? Não
entendo. São manjedouras?! Não vou mais em nenhum desses sítios que poluem a
vida turística.
Seguidamente então que me aparece
a sorte: o mano Tamba Quibebe!
O mano Tamba é um género do mar.
É uma das pessoas com o risco de vida no mar; na terra só hora de ancorar,
trazer seus peixes p’ro povo, reagrupar redes, anzóis, mantimentos. Do mar ele
conhece até a voz. Essa água grande, imensa, que nós vemos todos os dias azul e
inanimada também tem uma voz. Com minha
sinceridade falava “tu, mano Tamba, és um peixe/humano”. Pelo que respondeu:
“não faz mal, irmão; peixe é vida”. Ele só falava essas pequenas palavras.
A conversa ficou desanimada
quando lhe falei dessa maka com a esposa. Depois apareceu um velho seu amigo,
dado às danças. Ele marchava em passo de dança. É do “Mundo da Ilha – um grupo
de carnaval – vai um toque na areia, ualá-láá.
Na Ilha o carnaval é doença (a
conclusão é minha).
O mano Tamba contou no amigo a
maka que tenho no dia a dia com Vitória. Este encheu um discurso: “ Luanda
começou a escurecer; mudavam-se os nomes, alguns dos quais tinham sido os mais
certos. Com novas roupagens deram um nome ao carnaval: Carnaval da Vitória.
Hoje não sabemos que nome virá depois. Estou velho para tantas mudanças...” – o
velho interrompeu-se: “porque procura Vitória, é esposa do mano? Então procura,
eu não lhe vi. Quem procura acha”. Obrigado pela grande ajuda, amigo.
- Como é que essa moça é? –
perguntava de novo o velho, agora pela sétima vez.
Mano Tamba e o velho ajudavam na
busca. Levávamos longe a nossa procura. Em certo lugar avistamos um recinto
coberto com folhas e ramos de coqueiros, em cujo átrio, onde os protestantes
costumavam entoar hinos de louvor, uma multidão aclamava, agradecendo a Deus
pelo último milagre.
Qual milagre? O amigo do mano
Tamba sugeria que investigássemos o local porque, segundo ele, esse constituia
o mais espectacular de todos os caminhos.
O dono do local estranhou-nos.
Levantou-se e sacudiu no velho com fortes abanões: “que abuso é este, ein?
Anda, fala”.
- Aqui há Vitória? – disparou
incisivamente o velho.
- Não, só peixe – respondeu o
proprietário apontando para o centro do cenário sufocado de outras gentes
(turista?) onde uma mulher jazia húmida sobre o manso tapete de areia.
- Aquilo é um peixe? – indaguei
perplexo, já cá comigo desconfiando de bruxaria, dessas que metem uanga e
calemas.
- Peixe, não. Só o rabo –
responderam os loucos pelo espectáculo. Feirantes, turistas, pescadores, homens
do mar e da terra, gritavam emocionados. Haviam e tudo baptizados o espécime
com nomes que a nomenclatura marinha não prediz “Mulher-Peixe”, onde já se
ouviu? “Maria-Macoa” o quê?, não é nome nem de gente nem de peixe;
Joana-Corvina”? Pior.
À boca do mistério exclamei: “oh!
São os mesmos olhos e os mesmos lábios; os mesmos peitos. Os mesmos encantos
que me fizeram seu homem”. O meu espanto desembocava num espasmo verbal.
Ouviram-me homens do mar, longe da terra. Não era uma loucura. Eu sonhava (“era
quase o perfil de Vitória”).
Os meus olhos encontraram os dela
no fim da tarde. É a hora do mundo quando os pintores retratam um mar sob o
poente. Sonhar assim não faz mal.
Mano Tamba me aconselhava: “vai
p’ra casa irmão, acaba de sonhar lá. A Ilha é boa, tem belas coisas mas não
estás habituado a ela”.
- Está bem, mano Tamba; ELA
voltará. Convence-a a voltar.
- Espera aí. Por que tratas por
“ela” com letras grandes?
- Porque ela merece – respondi.
Mano Tamba primeiro pôs-se a
rir com aquele riso abocanhado,
vagaroso, cheio de kitaba dentífrica, para depois contrariar: “não há mulher,
por mais puta que seja, que mereça o pronome em letras gordas”.
- !!! – estupidifiquei-me.
A última parte do mano Tamba
Quibebe ferira-me profundamente que tive de contar ao Manecas. Enquanto contava
suscitava curiosos. Voltava a contar. Outros mais chegavam, pediam que a
recontasse. Inexplicavelmente havia mais palavras dentro do conto – uma, duas,
três... vinte vezes – quando a boca se cansou de contar e o conto cansou a noite;
a noite fez o vinho e cansou a mente. Finalmente Manecas resumiu: “também não
conheço tipa alguma que mereça o p.p. em letras enormes. Esse tal do mano Tamba
deve ser um gajo muito esperto”.
Recolhi-me a pensar meus
episódios. Sorvia uma quente ilusão na despreocupação do «scotch». Sei dos
balbucios, dos olhos que me tomam a direcção. Falam, agradeço. Agradeço ainda
ao ridículo que escutam da minha situação. Não sei mais onde tive de sonhar
estórias para as reeditar na mesa de bar.
Fim, THE END – comos filmes –
c’est fini, diabos!
in Os Dias e os tumultos - contos
Friday, January 18, 2013
Tuesday, December 25, 2012
(inéditos)
coração aos poucos
passos de uma caravana
coração diz e desdiz
enredosílabas à galope
guarda-te sentimento alheio
deste chegar aos pulos
como uma taquicardia
o corpo
em sístole & diástole
meus cavalos em fuga.
PERDEU O SONHO
o pedinte vai aos sonhos: supermarket
psicadélico. psicodelícia.
vegetatividade.
um erro de afrontas
o ‘não-sonhado’corpo em cheio
(eu já sabia o
desbocado “não”)
indizível descartável
negativo
consumismo em transe.Thursday, October 25, 2012
DESCER À CHUVA
chega dos rumores tece um parto à chuva
sua bruma é o leite da manhã
tem duas ânforas dispersas no peito
e alimenta os nervos à flor das paixões.
também eu desci à chuva cede-me uma ânfora;
havemos de conversar carne na carne;
na bruma da sua pele produzimos a língua;
os nossos nervos aproximam-se
como duas aves lânguidas tomadas de espasmos.
O PARAÍSO NÓS O PERDEMOS EM BUSCA DO CORPO
Dos teus medos desliza a serpente nativa
esta se ausenta dos nossos murmúrios
e o seu rasto cega-nos.
Nesse pasto cheguei depois de ti
e já o mundo perdido, amava.
Canções do corpo suspiravam
de atentos tambores urdidos no esquecimento.
Os frutos insaciáveis repartidos em nós
e o hino húmido de palavras que nos excitam
são palavras desafortunadas,
comemo-las e fenecemos.
O paraíso era apenas uma ideia
que ainda nos deixa de bocas aguadas.
Por agora busque-me, contigo moverei
a serpente nativa.
in " A Vitória é uma Ilusão de filósofos e de Loucos"
chega dos rumores tece um parto à chuva
sua bruma é o leite da manhã
tem duas ânforas dispersas no peito
e alimenta os nervos à flor das paixões.
também eu desci à chuva cede-me uma ânfora;
havemos de conversar carne na carne;
na bruma da sua pele produzimos a língua;
os nossos nervos aproximam-se
como duas aves lânguidas tomadas de espasmos.
O PARAÍSO NÓS O PERDEMOS EM BUSCA DO CORPO
Dos teus medos desliza a serpente nativa
esta se ausenta dos nossos murmúrios
e o seu rasto cega-nos.
Nesse pasto cheguei depois de ti
e já o mundo perdido, amava.
Canções do corpo suspiravam
de atentos tambores urdidos no esquecimento.
Os frutos insaciáveis repartidos em nós
e o hino húmido de palavras que nos excitam
são palavras desafortunadas,
comemo-las e fenecemos.
O paraíso era apenas uma ideia
que ainda nos deixa de bocas aguadas.
Por agora busque-me, contigo moverei
a serpente nativa.
in " A Vitória é uma Ilusão de filósofos e de Loucos"
Sunday, October 07, 2012
Antonio Cisneros, poeta
peruano, deixou cair um poema e foi embora. Deixa este mundo aos 69 anos.
O poema cá está ainda.1. QUANDO O DIABO ME RONDAVA
ANUNCIANDO SEUS RIGORES
Senhor, enferruja meus garfos e medalhas, estraga estes molares
enlouquece meu barbeiro, os servos
sejam mortos em suas camas de madeira, mas livra-me do Diabo.
Com seu cheiro de cachaça e os cabelos enlameados
se aproxima de minha casa, já o surpreendi
caído entre os vasos de gerânios, enrugado e nu.
Estou um pouco gordo, Senhor, espero teus rigores, mas não tantos.
Envelheci nas batalhas, os ídolos morreram.
Agora espanta o Diabo, leva estes gerânios e meu coração.
Faça-se a paz, amém.
Friday, September 28, 2012
os filósofos africanos disseram o corpo da mulher
[abunda
como um espasmo;
o corpo do homem perde-se na abundância da
[mulher
e fortalece espasmos como gritos à chuva.
temos as mãos pedindo à chuva que aguarde os
pastos. lá onde as nuvens tomam formas e lugares.
e o caminho por onde as nuvens entraram,
ramifica-se. apenas deixamos espalhados os
vocábulos da semente aprendendo doar vidas.
art & ngoma
tuas velhas mãos derrubam-me sobre o tambor.
da hipotética morte ressurgirei
desiquilibrado do pó; ante o evangelho melancólico
de teus tambores, majestade, ressurgirei.
e porque sou catequista recolho a notícia dos corpos
soltos no meu grito: do mundo apenas sei esse mexer
de coisas quebradas e a civilização do pó.
o que as mãos tropeçam
O meu salário é aquilo que as mãos tropeçam;
é um ganho insatisfeito.
Eis o meu caminho detrás de outro caminho.
Já o meu sonho é ganhar a época.
Repito o salário aquilo que as mãos tropeçam
destrocam-me o dilema em miúdos.
Hoje tenho tão só de ouvir o tempo com
as orelhas no esquecimento.
E canto como era a boca sem povo.
É este o caminho que não foi escutado.
in Lugar Assim
2004
Saturday, September 08, 2012
(!)
(vivo. luto pelo que exprimo. sobejam princípios.
sangrando germino. não lutando me devoro.
esperar é demolir a expressão. calar-me é
inaceitável. o vazio. buraco no sonho. um saco.)
ELA ARDE
os sonhos dela ardem e tornam-se vivos;
vivos os nervos entre as gotas do incêndio.
ela arde e transpira os comícios á beira do leite.
virei beber o lume do seu corpo suado;
virei porque o amor arde de febre e não tem cura;
virei porque ela chora de branco apeada sobre a
própria noite. e vejo o seu corpo renovado.
in «a vitória é uma ilusão de filósofos e de louco»s
(vivo. luto pelo que exprimo. sobejam princípios.
sangrando germino. não lutando me devoro.
esperar é demolir a expressão. calar-me é
inaceitável. o vazio. buraco no sonho. um saco.)
ELA ARDE
os sonhos dela ardem e tornam-se vivos;
vivos os nervos entre as gotas do incêndio.
ela arde e transpira os comícios á beira do leite.
virei beber o lume do seu corpo suado;
virei porque o amor arde de febre e não tem cura;
virei porque ela chora de branco apeada sobre a
própria noite. e vejo o seu corpo renovado.
in «a vitória é uma ilusão de filósofos e de louco»s
Sunday, August 19, 2012
o
mundo recriado a partir
dos
olhos duma mulher
Sou a palavra que você não disse
o nome que você não chamou.Contigo viverei palavras desiguais
palavras ardidas na língua que as prolonga;
palavras perdidas e procuradas
onde tentas o sonho
(não há mais nada para sonhar?)
Sou a palavra que você não disse
uma canção ao maravilhoso.
As páginas perseguem-me e
da retórica colhes os números;
mas os números não dizem nada
- são preocupações do pouco,
sem as contar sem as procurar.
Eu sei, nos teus olhos, mulher
se eleva o pensamento;
dos teus olhos, mulher
Deus recriará o mundo.
Assim fora o começo d’olhos pensados
nas mãos de Deus.
[poema.
A escrita é feminina as palavras são
[mulheres.
Nascimento, dá-me a sua invenção de
[formas
deixa perceber a palavra sou um homem.
Para um homem que nasce pátria é um
[útero.
É esperto aquele que inventou a vida numa
[palavra.
Aquele sabe a mulher sedada de noites puras,
sabe a fórmula de mulher começa com U.
Wednesday, August 08, 2012
Sunday, July 29, 2012
Wednesday, June 13, 2012
A QUESTÃO DOS INCÊNDIOS
Eu e a
Lucrécia estávamos apreciando os fogos – que depois julgamos ser o fogo da Despertação. Lúcidos, muito estriados de
barras, alguns com contornos azul e laranja. Os fogos faziam barulho bum... bum bum... Eu estava a esfregar
ainda os olhos dormentes porque despertava de um sonho estúpido em que ladrava
com os cães. Mas aquilo é quê? – foi a primeira pergunta que fiz quando os
rumores de fogo me bateram os tímpanos, mas Luci já cá fora cantava num mundo
de novo iluminado.
O mundo
está a nascer de novo! – ludibriava-me o próprio pensamento quando vi a lua,
farta e colossal sempre espumando no alto. Os fogos voavam, alindavam o tempo.
Não é o mundo a nascer de novo, meu querido; são anjos, anjos de fogo. Alguns
têm asas enormes, vê-los!
Anjos de
fogo?! Mas quem é a Luci para alimentar o que não está na bíblia? Mentalmente
eu desapontava a crença que a Lucrécia tinha bem entranhada na leveza da sua
alma. Aquela luminosidade não é fogo. É parente do fogo – disse-lhe.
O vizinho
Pedro – a quem Luci chamará sempre a alma
do diabo para o resto da vida – entrou aos tropeços e encaminhou-se até ao
fundo do nosso quintal onde eu e ela misturávamos os cânticos. “Incendiaram o
paiol vamos fugir...”. Luci não o escutava. Luci ressalvava os cânticos.
Passadas
duas horas, Luci não conseguia dormir. Dizia e repetia, sentia o corpo ardente,
para voltar a dizer que o que sentia não era fogo na carne mas sim um espírito
quente. Mal recomecei a dormir senti o ladrar dos tormentos. Dessa vez eu não
ladrava com eles. Eles é que ladravam dentro do meu corpo. Tremia e transudava
ao ritmo dos cães. O sonho foi aumentando de enredo. A certa altura, a gritaria
da matilha pouco faltou que me levasse à explosão. Ainda a sonhar comecei a
expulsar de mim os kalundus e os
caninos. Xinguilava. O lençol ficou encharcado de suor.
Lucrécia
voltara ao pátio. Contei-lhe que havia cães povoando meus sonhos. Ela
aconselhou-me a aquecer o corpo bebendo chá quente, pois ela estava a sorver
chá de caxinde, com maturidade, com elegância, como exige a bebida. Tomei-lhe a
caneca do mesmo jeito suburbano.
No entanto,
a lua continuava a espumar. Mais fresca saltava a madrugada e Luci continuava a
sentir-se aquecida na alma. Tu estás louca Luci; não é o espírito quente, estás
com febre! Ela não dormiu. Nunca mais voltaria a dormir. Às noites fazia uma
fogueira e achegava-se muito perto dela; no quarto de dormir espalhava
castiçais, velas vermelhas, amarelas, azuis, verdes, e rezava para que as
noites continuassem quentes e húmidas.
Um dia
desses fiquei muito assustado porque Lucrécia estava a tremer de febre interna,
e resolvi procurar um médico. De volta, estava ela já em coma. Os olhos dela
continuavam abertos, vivos; o corpo estava ainda muito quente; a respiração
aprisionada mas o coração via-se ainda a saltitar no peito.
- Febre
tifóide – disse o doutor. – É por causa da água.
- Não posso
entender, senhor doutor. A nossa água é bem fresquinha, da geleira; mesmo
whisky o sorvemos com gelo. Esta febre é do fogo. Ultimamente ela própria se
junta ao fogo. E conta p’ras visitas que os anjos são de fogo. Não será uma
loucura qualquer?
- A nossa
água não é tratada, rapaz. Mata mais de cem por ano, só na capital.
Só me
restava esta! A água de beber também mata. Tenho de ferver e decantar a água
como se estivesse a preparar uma ementa.
- Senhor
doutor não é melhor pôr antibiótico directamente na água? Carvão está muito
caro nas praças.
Luci
sucumbia. Vi com meus próprios olhos, estes olhos que a terra há-de comer, que
expelia pela boca, línguas de fogo. Luci sempre foi uma mulher muito quente,
mas não podia eu acreditar que o seu corpo produzisse labaredas. Mas vejamos:
se na verdade a pureza dos anjos é quente – pois ela falava de anjos de fogo –,
então ela própria era, inadvertidadmente, um anjo na terra.
Depois
(então) começo o verdadeiro conto. Desses que eu respiro dos anos acontecidos
n’Àfrica exótica, tropicalíssima. Nunca que eu senti uma paz com a cor do anjo.
Nunca. Foi só quando recomeçou o tiroteio. Na altura falava-se já do sangue
quente: nós com o sangue aquecido? O cheiro da pólvora é um doce querer no
corpo interior? Ah, não. Nas mochilas enchemos granadas. Os reclames e os
panfletos estavam bem prontos de nos educar: “vamos lá fazer a guerra para
acabar com a guerra.”
Aié! Guerra
pela paz?! Na óptica de Luci a paz é quente e os anjos são de fogo. Logo, a paz
é isso: nasce dos incêndios. Estou finalmente a perceber... a questão dos incêndios!
in os dias e os tumultos
Sunday, April 29, 2012
PALAVRA
ENSOPADA
palavras
bonitas como a palavra mágica.
nascente
uma palavra moça, recorrente.
palavra
menstrual, rosada.
a rigor
o mês assiste o vocabulárioda permuta,
a
palavra volúpia teu sexo repleto de pássaros
notas
mágicas teus olhos cheios de plan(e)tasmuitas palavras por dizer ou rasgar
quando comes os frutos ensopados;
quando
do fruto tens palavra sentir: formas e dores;
e caber
na forma palavra nutrir.
mulher
de cabinda aparada de
navalhas
mas ilesaaquela que bebe da nascente
cheia de enclaves uma lua
me faz enorme e pública no
átrio cristão do seu ventre.
o bosquímano tem um bosque verde
o poeta amareleceu. caótico. diga.
gemente.
a luz. a gema.
no fim
das tuas pupilas
amor
vítreo. humor vítreo.
água
ensolarada água. pálida. humor.os teus olhos têm clara ideia do que eu peço
para beber?
ideário.
amor. rio.
só pode
ser vulvar.
um
vulto. doce. partiturra.
na carne
uma uva. ou aquário.
meus
triste olhos tristes
não os
peças que desmanchemteu último corpo.
a ideia segue cega.
isto é: trapos de poesia.
e frutos avultados.
Quando
prontos os frutos
bebo-lhe
noites o odor da manada.
A ela
devo as coisas mais elementares:
o
suspiro libertadora primeira água e,
o
evangelho deste corpo intacto e húmido;
a água
acumulada no meu celibatocomo o amor no último cuspo.
Monday, April 02, 2012
Monday, March 26, 2012
OBITUÁRIO
Onde ouvidos repetem pequenas ruínas
sobra o revólver sobre dias túmidos
para decretar morte é como ninguém
para aumentar áfricas laboratoriais e
o latifúndio;
depois dá um tiro na cabeça da história
tal como tropeça no meu palavrão sem
nada para acrescentar à morte sem
nada para contar à vida
sem ser nunca o nome da multidão.
Onde ouvidos repetem pequenas ruínas
sobra o revólver sobre dias túmidos
para decretar morte é como ninguém
para aumentar áfricas laboratoriais e
o latifúndio;
depois dá um tiro na cabeça da história
tal como tropeça no meu palavrão sem
nada para acrescentar à morte sem
nada para contar à vida
sem ser nunca o nome da multidão.
Saturday, March 10, 2012
Na ressaca de “canto dos novos poetas e o parto difícil da nação”
de Norberto Costa.
Publicado no Jornal de Angola e retomado por determinado blog, o texto de Norberto Costa sobre as últimas gerações literárias no contexto angolano, fornece importantes elementos contribuintes para a historiografia da literatura angolana dos últimos tempos. Ter-me-ia passado despercebido porém, uma apreciação crítica, contundente, afectando a mais recente geração, com que o Norberto finaliza o artigo, desencadeia a via pela qual o texto veio parar à minha mesa de trabalho. Olhemos o que diz:
“Nos últimos anos, a par da consolidação deste legado literário que já é secular, o valor acrescentado da actividade ficcional e poética dos novos autores, afirma-se, reafirma-se e firma-se no meio de um novo surto. Este de maus poetas. O défice que muitas dessas obras acusam em termos de qualidade, publicadas pelos mais novos dos anos 2000/2010, revela as limitações de vária ordem que os “novos aventureiros” da arte de escrever enfrentam, a par da falta de leitura aturada e o deficiente conhecimento da língua portuguesa. Ainda estamos longe de ver emergir uma nova geração de poetas de qualidade literária reconhecida como nos finais dos anos 80 e princípios dos 90.”.
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Publicado no Jornal de Angola e retomado por determinado blog, o texto de Norberto Costa sobre as últimas gerações literárias no contexto angolano, fornece importantes elementos contribuintes para a historiografia da literatura angolana dos últimos tempos. Ter-me-ia passado despercebido porém, uma apreciação crítica, contundente, afectando a mais recente geração, com que o Norberto finaliza o artigo, desencadeia a via pela qual o texto veio parar à minha mesa de trabalho. Olhemos o que diz:
“Nos últimos anos, a par da consolidação deste legado literário que já é secular, o valor acrescentado da actividade ficcional e poética dos novos autores, afirma-se, reafirma-se e firma-se no meio de um novo surto. Este de maus poetas. O défice que muitas dessas obras acusam em termos de qualidade, publicadas pelos mais novos dos anos 2000/2010, revela as limitações de vária ordem que os “novos aventureiros” da arte de escrever enfrentam, a par da falta de leitura aturada e o deficiente conhecimento da língua portuguesa. Ainda estamos longe de ver emergir uma nova geração de poetas de qualidade literária reconhecida como nos finais dos anos 80 e princípios dos 90.”.
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Maus poetas! Por pouco não daria então caso de polícia. Devo lembrar que o princípio de valoração de qualquer geração fundamenta-se à produção estética dos seus elementos. Esta valoração recai sobre a(s) obra(s) e não sobre o(s) seu(s) executor(es). É Ortega y Gasset quem nos transmite este princípio quando afirma «o mau em estética é a insuficiência». Pois, que se não há obras literárias, não há geração literária. Claro está que vemos deficiências de toda ordem que NC ressalta no domínio da leitura e da língua, mas isso também aconteceu com a geração precedente, até à selecção natural que o tempo impôs. Mas dizer que ainda estamos longe de ver emergir uma nova geração de qualidade reconhecida, é vago, gratuíto, meramente futurista. Luandino Vieira, um “velho” escritor à leme do barco das gerações, disse certa vez (não preciso dizer onde) “as gerações literárias respondem às perguntas do seu tempo” – citei de memória. Cabe-me aqui exprimir o que afirmei certa vez a um amigo: hoje os novos escritores, marcados pelos antecedentes (recentes) da própria historia literária, já nascem vigiados. Poderá não haver
explosão, surto, ou coisa similar. Apenas escritores comprometidos com seus próprios sonhos e com suas inquietações, que passam pela realização estética. Norberto Costa deve ter limitado suas leituras e estacionado nos anos 80-90. Ora, para partilhar meus considerandos vou lembrar a quem me ouve alguns (concordo que não muitos) novos escritores, surgidos na última década.
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explosão, surto, ou coisa similar. Apenas escritores comprometidos com seus próprios sonhos e com suas inquietações, que passam pela realização estética. Norberto Costa deve ter limitado suas leituras e estacionado nos anos 80-90. Ora, para partilhar meus considerandos vou lembrar a quem me ouve alguns (concordo que não muitos) novos escritores, surgidos na última década.
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Ondjaki: um ficcionista de franco gabarito. Escreve de modo simples mas com grande atitude literária, com uma qualidade que deslumbra. Positivamente é um escritor cuja obra pode ter sido influenciada, dentro de uma rica analogia, por Luandino Vieira e por Mia Couto. É por sua qualidades que é um escritor laureado aqui e fora. Um “raro” ficcionista... Quem dirá que não?
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Abreu Paxe: revelado no concurso “prémio António Jacinto que venceu com o meteórico inconformismo de textos que me parecem ser poemas, o seu segundo livro intitula-se “O Vento Fede de Luz” que é com certeza uma coisa nova, viva e rutilante no poemário nacional. É lê-lo sem preconceito. Este professor de literatura que também se destaca como ensaísta, crítico e conferencista, interage com o rotulado neo-barroco (gosto pouco disso mas enfim...), com o centro enraizado no sudeste do Brasil, onde ele é todavia cartaz chamativo por razões estéticas. Dizem que está inovando... Bem, um “raro poeta.
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Gociante Patissa: é lê-lo, é fascínio. Tudo é. Seus poemas são de grande nível estético. Maior ainda a ficção que leva seu primeiro livro de contos, com ele a pintar estórias com a tinta do surrealismo umas vezes e do fantástico outras. Concluo que bebeu do chá dos latinos americanos etc. etc.. O seu interesse por ideias, o seu autodidatismo, ajudaram-no a criar o blog Angola, Debates & Ideias que julgo ser um dos melhores blogs no contexto da CPLP, onde além de tudo emprega uma dinâmica estético-literária bastante criativa. É verdade.
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Pombal Maria: o mais ousado experimentalista dessa geração. Apresenta uma cartilha multifacética, onde estaria evidenciada a Escola de São Paulo – lembram-se dos concretistas? – quer a “desenhar” poemas ou a escrevivê-los, o poeta é autêntico. Ele tem... Sim, teemm. Quem lhe deu? Ningi?
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Nok Nogueira: prémio António Jacinto em 2004 (estou certo?), a sua poética é algo bem conseguida, todavia acredito que há-de evoluir mais ainda, conforme deixa perceber o texto. Não o ignorem.
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Sónia Gomes: uma ficcionista em progressão, como aponta o seu último livro “A Filha do General”. É simples e metódica, sobretudo muito imaginativa.
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Carlos Pedro (Poeta quê? Frustrado porquê?), David Capelenguela e Nguimba Ngola. Estão a suar, percebe-se. Vá logo alguém achá-los à partida de maus... Ninguém merece.
Friday, January 27, 2012
Continuo a falar Poesia. Sim, continuo. Em perspectiva um novo poemário. Se possível para este ano. Eis algum dos poemas
PASSEIO NA RUA NJIGA MBANDI
Noite tão preta como um eclipse.
Njinga, aqui perto
vem de novo. A vida exaurida
o preto bantu dos seus cabelos enormes.
Não sei de cor o passado
não sei se o passado já passou
apenas sei que chagas antigas
são a minha língua.
A rua onde ela mora é uma dor intensa,
sei também: um poema fatigado
começa no passado conserva a preta escrita
e comigo tece a forma de uma briga
com a guerrilha que nos vem do sangue.
PASSEIO NA RUA NJIGA MBANDI
Noite tão preta como um eclipse.
Njinga, aqui perto
vem de novo. A vida exaurida
o preto bantu dos seus cabelos enormes.
Não sei de cor o passado
não sei se o passado já passou
apenas sei que chagas antigas
são a minha língua.
A rua onde ela mora é uma dor intensa,
sei também: um poema fatigado
começa no passado conserva a preta escrita
e comigo tece a forma de uma briga
com a guerrilha que nos vem do sangue.
Monday, December 26, 2011
Inéditos publicados neste Blog em 2006, que julgava esquecidos
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tudo parece que foi ontem
*
por um dia de parto
escreve-se um comício:
tudo parece ontem
o hospital e o paraíso.
os mesmos anjos
no limite d'ervas.
no limite d'ervas.
estamos reunidos com o doutor do
mundo
ninguém escreverá uma dor que seja.
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no meu caderno de palavras prosseguem os rascunhos, certo
dia que ouço o barulho que vem da cozinha, os curtos passos de uma mulher
atarefada, atarantada, bailo naquele átrio, o barulho próprio das cozinhas, a
imaginação compõe uma orquestra. inédito absorvível, provavelmente ainda não
concluído. eis...
dia que ouço o barulho que vem da cozinha, os curtos passos de uma mulher
atarefada, atarantada, bailo naquele átrio, o barulho próprio das cozinhas, a
imaginação compõe uma orquestra. inédito absorvível, provavelmente ainda não
concluído. eis...
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LABORATÓRIO
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Tagarelando a orquestra teus utensílios
cada vez mais teus sons o toque de um copo
uma tampa rolando o ruído da frigideira
tangível teu corpo deste ímpeto informe
mãos no olfacto som no paladar,
água na fervura. você me aquece,
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cheia de temperaturas
em todo teu corpo houvera uma tempestade:
o corpo candente
a farinha branca
a panela a ferver e eu a ferver
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fogo no espírito, operária
de novo venho entregar-me
faço parte dessa fórmula secreta
aprontada em ponto de fogo.
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